UP17 – Flares

Retomando a coluna do mês passado, dessa vez teremos mais detalhes sobre as coberturas que são aplicadas aos elementos ópticos das lentes visando melhorar sua qualidade e, ainda mais importante, seu rendimento luminoso.

Ao final do século XIX, a fotografia se desenvolvia a passos largos, tanto na forma de arte como na forma de ciência. Projetos de novas lentes surgiam a lentamente, resultados de muita matemática, física e cuidado artesanal na hora de cortar e polir cada elemento de vidro que seria utilizado em sua construção. Um verdadeiro tesouro, mas longe da perfeição.

Um problema ainda sem solução era o fato de que entrava muito mais luz pela abertura da lente do que a luz que era projetada na forma de imagem sobre o filme. Essa dispersão decorria, principalmente, da diferença entre o índice de refração do ar, e do vidro, os dois meios que compõem uma lente. A cada elemento óptico atravessado pela luz, parte dos raios luminosos se dispersava devido à curvatura do vidro e ia parar longe de seu foco, mas ainda incidindo sobre o filme. O resultado dessa dispersão: raios desordenados, ricocheteando de um lado para o outro nas superfícies internas entre cada elemento óptico e chegando ao filme, onde provocavam grande perda de contraste e cor nas fotografias – aquele flare esbranquiçado que, de vez em quando, aparece numa foto.

Como o vidro não tinha qualquer tipo de proteção ou cobertura, conforme envelhecia, era comum que surgissem manchas em sua superfície. Em 1886, Lord Raileigh pesquisava uma forma de combater essas manchas quando descobriu que o vidro manchado transmitia mais luz do que o vidro limpo, novo, e que as manchas melhoravam a transição entre os meios físicos ar – vidro. A partir daí, a química tomou conta e foram-se descobrindo que camadas finíssimas, de materiais específicos (metais raros, em sua maioria), aprimorava essa transmissão de luz, além de eliminar reflexos indesejados e filtrar cores específicas. Para visualizar isso com clareza é só olhar o reflexo de uma fonte de luz sobre o elemento dianteiro ou traseiro de uma lente: esse reflexo nunca é “da cor da luz”. A tendência atual é que ele seja verde, ou lilás, devido ao fluoreto de magnésio empregado nas camadas superiores.

O nome “multi-coating” vem do fato de serem diversas dessas camadas, com espessura de alguns poucos nanômetros, fazendo os degraus entre o índice de refração do ar (1.0) e o do vidro (1.6) e garantindo menos dispersão de luz, proteção contra flares e até mesmo contra pequenos riscos. Essas camadas são presas ao vidro através de um processo físico de metalização em alto vácuo que garante que elas não vão se soltar sozinhas, cair ou se desfazer com o tempo.

Mesmo com toda essa proteção, existem fontes de luz tão intensas que, quando expostas numa fotografia, provocam flares, mas agora de forma muito mais controlada do que aqueles encontrados no começo do século. É comum que esses flares sejam pequenas manchas coloridas, bem definidas, no formato da abertura da lente (pentágonos e hexágonos são as formas mais comuns). A variação de cor de cada manchinha é dada justamente pelos diferentes elementos utilizados em seu coating, em combinação com a qualidade e cor da fonte de luz. O número de manchas também varia bastante, de acordo com a lente utilizada.

O ponto agora é saber lidar com essa característica. Não é necessariamente um defeito, quando trabalhada de forma criativa. Mas, se for um defeito, também já temos as ferramentas de como combatê-lo, especialmente se a fonte de luz não estiver aparecendo na fotografia, estiver acima, abaixo ou nas laterais do quadro: é só colocar a mão para cobrí-la!


Coluna Ultrapassagem, Publicada originalmente na Revista OLD #31, em Março/2014

Perca Peso.

Hoje foi dia de tarefas mais domésticas. Dei uma geral na casa, fui no mercado porque tava praticamente sem comida – sem PÃO! -, e fiquei muito feliz quando cheguei lá e o pacote tava por $2, ao invés dos tradicionais $4. Comprei logo três, e brinquei de quebra-cabeça pra fazer caber tudo na mochila. A volta do mercado pra casa tem uma ladeira escrotíssima pra vencer de bike, e juro que nos próximos meses vou me dedicar a conquistá-la sem tanto esforço. Tem que colocar na marcha mais leve de TODAS, e ir subindo devagarinho, senão não tem condições. A desgraçada mede umas quatro quadras seguidas! O bom é que quando ela acaba, eu já to do lado de casa, e parece que o resto do caminho passa num piscar de olhos. Depois, fui correndo – de bike de novo – buscar uma panela de pressão que a May achou pelo Craigslist – peguei uma descida IMENSA, que achei que ia sair voando antes de chegar no fim. Foi divertido, saí de casa atrasado e cheguei adiantado pra encontrar o camarada.

O título do post é referência a uma música dos Móveis Coloniais de Acaju, que embaralha a letra pelo meio, e tem uns versos muito divertidos, em particular “Deixe seus sonhos de lado/Use as facas para o jogo”, que na verdade é um remix de outros versos, que aparecem algumas estrofes antes.

Falando em remix, se você tá com quarenta minutinhos livres, recomendo assistir esse documentário grátis, feito ao longo de dois anos, dividido em quatro capítulos, que fala sobre a cultura moderna, e como nossas criações artísitcas são baseadas em copiar, combinar e transformar. É MUITO interessante, cada episódio passa rapidinho, e vai provavelmente vai mudar seu jeito de ver filmes, ouvir músicas, ou pensar nos grandes inventores da história da humanidade.




Agora chega de videozinhos, tenho que desenhar mais cenários por aqui. Mais tarde posto novidades.

Nutty Bedroom – Day Time.

Aê, mais um assignment de aula, daqueles que levam trocentas horas pra finalizar. Na verdade, esse levou 50 minutos só pra renderizar, e mais muitas e muitas horas de ajustes e testes. É de Lighting. O objetivo – não muito difícil de adivinhar – era iluminar esse quarto, de forma naturalista, somente com luz natural.

Se iluminar as coisas na vida real é divertido, em 3D, é três vezes mais divertido, porque você tem liberdade total. Dá pra fazer uma luz que ilumina só UM objeto, mesmo que ele esteja em meio a muitos outros, as luzes não têm corpo físico, então podem estar em qualquer lugar, e não aparecem em quadro, entre outras coisas. O único ponto negativo é que demora.

A gente ainda não pegou coisas muito práticas, então a idéia é ir simulando o comportamento real da luz, com várias fontes. Por exemplo, a luz entra pela janela e bate no chão e na cama. No mundo real, esses dois pontos refletem, difusamente para os arredores, como uma fonte de luz secundária, e assim por diante, iluminando o quarto todo só com o Sol. Nesse método que a gente tá seguindo – por enquanto – temos que fazer o trabalho da natureza. A luz entra e ilumina o chão e a cama. Beleza, agora cabe a mim colocar OUTRA luz, criando essa difusão natural. E ir colocando mais um monte de luzes pra fazer detalhes, ressaltar formas, controlar o contraste entre luz e sombra, e por aí vai. Uma coisa louca, onde, por exemplo, o pobre do quarto abaixo tem mais de 15 fontes de luz espalhadas pelo ar.

Mas fica tãããão bonitinho, que vale a pena ficar arrastando elas pra cima e pra baixo, mexendo em tudo e afinando por horas e horas. Aqui todas as experiências de fotografia estão valendo ouro, e simular a luz é muito mais fácil quando já se tem uma noção de como ela se comporta, por observação da realidade.

Menos é Mais.

Menos posts, em termos de quantidade, mas todos os posts são enormes! É divertido escrever nesse blog.

Não sei se é por conta de experiências anteriores, mas eu nunca tenho muita fé quando tô mandando um email para uma pessoa “desconhecida” – e aqui o conceito é bem amplo: “desconhecido” pode ser qualquer pessoa que não me é próxima. O exemplo mais óbvio eram os professores da USP. Conhecer eu conheço, tinha aula toda semana, trocentas horas por dia, mas – desde os tempos de colégio – sempre tive a sensação que o relacionamento professor-estudante era algo inerente à sala de aula. Fora dali, eu sou uma pessoa e o professor é outra. A matéria em comum não garante que a gente vai ter assunto fora das aulas. A questão dos emails não é exclusiva de professores, mas gostei do assunto, volto pra emails daqui a pouco.

Acho que por isso, de sermos pessoas não-necessariamente conectadas, na minha memória, os professores que mais ficaram são aqueles que falavam de assuntos outros que não o da matéria em questão. Desses eu lembro, como pessoas. Os que só passavam o conteúdo, eu costumo lembrar do conteúdo, mas quase nada das aulas. Na lata, se me perguntam, qual foi o melhor professor que já tive, o que chega correndo na língua pra pular como resposta é Clóvis, de física, no primeiro ano do ensino médio. Me pergunta o motivo, e eu não lembro. Se eu lembrar, escrevo. Mas lembro que Clovinho foi foda.

Mentira, lembrei. Até o primeiro ano, eu sempre fui meio aluno-modelo. O sujeito que terminava a prova antes do tempo mínimo e ficava esperando dar a hora pra poder sair da sala. Tinha ótimas notas também, era quieto, fazia os trabalhos e não atrapalhava a aula. Se eu fosse professor, e tivesse um aluno desses, ia achar ótimo, é um pepino a menos na minha vida. Menos um pra recuperação, menos um pra ficar mandando bilhete pros pais, menos um pra reclamar na diretoria, sei lá. E acho que funcionava meio assim mesmo. Meus pais ouviam os elogios, eu, na maioria das vezes, nem ligava muito pra nada. Tava na escola pra aprender, e o mínimo a fazer era isso. Nada era muito difícil até ali.

Aí chegou o primeiro ano. A média diminuía, de 6 pra 5. Matematicamente, era mais fácil de passar. Ganhávamos também novas matérias, Física, Química e Biologia, todas derivadas da abrangente “Ciências”, e com um nível de detalhamento muuuito maior que a matéria-mãe. Apesar de gostar muito de matemática, meu primeiro trimestre de física foi uma catástrofe. Eu adorava a matéria, achava sensacional a possibilidade de explicar o mundo todo com números, mas alguma coisa não tava dando certo na minha cabeça, tanto que fiquei abaixo da média no primeiro bloco de física. Eu, o menino que acabava a prova antes da hora. Não tinha deixado de acabar a prova antes da hora, só que agora as respostas é que não estavam certas.

Clóvis não era um professor “gente boa”, que elogia todo mundo, faz brincadeirinha, sorri o tempo todo, etc. Mas as aulas eram muito divertidas – justamente por causa do personagem – e até quem não gostava da matéria, naõ tinha muito problema em sobreviver à aula. Nos primeiros testes, fui ok, fiquei pouco acima da média, nenhum problema. Eu não acreditava em estudar, sabe, sentar e fazer exercícios, ler, etc. Lia algo quando era interessante, no geral, ficava só com o que tinha visto em aula e anotado no caderno. Na última prova, tirei 2 valendo 10. DOIS. Minha nota mais baixa até então tinha sido algo perto de 6 ou 7. Pensa numa criança em desespero, e sem saber pra onde ir, era eu. Agradeço infinitamente a meus coleguinhas que fizeram piada e me acolheram como parte do grupo, agora daqueles que tiram nota baixa. Nos minutos depois do desespero, já tava rindo e pensando que ia ser moleza recuperar no segundo bloco.

Grande erro. Tomei outra porrada na primeira prova – não lembro a nota exata, acho que 3.5 de 10 – e continuei fazendo graça, pensando “se eu quiser passar eu passo, é só estudar”. Na aula seguinte à da entrega dos resultados, Clóvis deu um discurso que eu tenho certeza que não tinha nada a ver com a escola, e sim o que ele via naquele tempo, comparado com o que ele vira, muitos anos atrás, quando ele começava a ensinar, ou quando ele mesmo ainda era estudante. Não lembro exatamente as palavras, mas era algo do tipo “acho bizarro o jeito que vocês recebem notas hoje em dia. Se tirou nota boa, é um escroto, que não passou cola, CDF, só faz estudar. Se tirou nota baixa, é da galera, é o espertão, não tá perdendo tempo com a escola, comemora, dá risada e fala que ‘depois meu pai paga a recuperação e tá tudo certo’. Filho, cada recuperação é XYZ (não lembro o valor, mas era muito), você não sabe que sua mensalidade já é cara? Vocês não estão dando valor pro esforço dos pais de vocês em colocarem vocês aqui. Tem muita escola ruim por aí, que custa uma fração do preço. Já que o objetivo é só passar, porque não vai pra lá? Aproveita e economiza um dinheiro!”. Depois dessa, a sala ficou quieta pelos 100 minutos seguintes, onde ele explicava a matéria.

Pra alguns, aquelas palavras não significaram nada. Pra outros, fizeram algum sentido naquela hora, depois foram se apagando e sumiram. Pra mim – e dois anos depois, pra quem tava perto de mim – foi uma puta revelação. Sei lá, nunca tinha pensado nesse ângulo. Eu tinha 13 anos! Na saída da aula, ainda passei por Clóvis no corredor, e ele falou pra mim rapidinho (uma coisa meio “desconhecido” meio “eu me importo com o que você vai fazer depois dessa escola”) que sempre ouvia os professores falando bem de mim, e que ele não tava vendo isso em aula. Eu tava sempre conversando, não prestava atenção, minhas notas mostravam isso. Perguntou se tava tudo bem comigo. Respondi que sim, na hora não foi grande coisa, mas acho que foi essa “conversa” que marcou pra mim, tempos depois.

Aí começou a fritação, e eu comecei a estudar física, loucamente. Aquela merda não era fácil como minha cabeça de 13 anos tava achando! Não muito depois, no próximo teste, valendo 6, eu tava preparado. Claro, nervoso porque já tinha me estrepado todo antes, mas pelo menos achava que sabia o que precisava pra responder. Não fui um dos primeiros a acabar. Passei a limpo as respostas – acho que foi a única vez que fiz isso, antes do vestibular e entreguei. Dali a algumas semanas, receberíamos o resultado. Pra variar, completando minha sina de colegial, ou eu era o último ou o penúltimo na lista de chamada, e todas as entregas eram em ordem alfabética. Antes de começar, Clóvis falou que mais da metade da turma tinha ficado abaixo da média, algumas notas boas e UMA nota máxima. Depois de gente comemorando notas boas, chorando notas ruins, afinal chegou meu nome e saí do fundo da sala pra buscar a prova. Chegando perto, nervoso pra cacete, não sabia se devia esperar uma bomba ou comemorar por ficar acima da média.

Clóvis me entregou a prova virada ao contrário, com a nota pra baixo. Eu nem fui olhando pra prova, fui olhando pra ele, que abriu um sorrisinho, daquele tipo que a gente tá sempre tentando disfarçar, e falou “Parabéns. Continue assim”. Já sabia que não tinha ido mal, mas só olhei a prova mesmo quando tava no meu lugar de novo. Não sei se é algo da minha cabeça, mas lembro das pessoas perguntando a nota, e eu não tinha nem visto ainda. Quando virei o papel, tava lá meu seis, redondo. Nada errado, nem meia conta. Tenho até hoje, de tanto que me orgulho dessa prova! hahaha! Foi uma sensação física bem parecida com a do primeiro 2, tremedeira, suor frio, músculos tensos, incredulidade. Mas dessa vez era bom.

Depois daí, a vida em Física não foi moleza, o segundo ano ainda era com Clóvis – amém! – e penei pra passar. Foi a única vez na vida que achei que podia ir pra recuperação. Passei raspando na média, mas agora sem a crise. Agora eu já não tava fazendo as coisas sem pensar. O segundo ano do ensino médio foi onde – eu diria – começou a nascer a Paperball, e eu realmente preciso escrever sobre isso. De forma resumida, sim, minhas notas baixaram, mas tem mil coisas a se considerar, e não vou entrar nelas nesse post.

E aqui tô eu, escrevendo sobre uma figura que provavelmente nunca vai ler isso, e nunca vai saber o quanto foi impactante pra mim. Acho que isso é meio inerente ao trabalho de professor, na verdade. Tem umas coisas que a gente só aprende a valorizar depois de uns anos. Depois desses apertos com física, hoje é uma das minhas matérias favoritas, olhando pra trás, e uma que absolutamente não me assusta se eu tiver que voltar a estudar pra alguma coisa, graças a essa UMA única conversão de professor-estudante para pessoa-pessoa (pelo menos, na minha interpretação).

Se você teve paciência e coragem pra chegar até aqui, vou terminar o post que tinha começado, retomando os benditos emails. Bom, como já gastei trocentos parágrafos explicando, pra mim, um professor não é necessariamente um amigo e a experiência da USP foi uma ótima forma de reforçar esse ponto. Na maioria das vezes que mandei emails pra professores, a respeito de qualquer coisa relacionada às aulas, ou algum projeto que precisava de aprovação, eu nunca esperei resposta. Ou pelo menos, nunca esperei uma resposta imediata. Geralmente eu mandava um email com dias de antecedência, conversava com os funcionários do CTR sobre as coisas que ia precisar, qual a chance de conseguir, que caminho seguir, na hora de conversar com o professor, etc. Aí, eventualmente, depois de uma aula, eu corria um pouquinho no corredor, perguntava se ele (ou ela) tinha visto o email, e resolvia o assunto.

Só durante o TCC mesmo que eu contava com respostas do Scavone para me ajudar em algumas coisas do processo, mas foram poucos emails, no total. O mesmo vale pra emails relacionados a compras, vendas, dúvidas em relação a produtos ou serviços, taxas, etc. Eu mando o email como um teste. Se tiver resposta, maravilhoso. Se não tiver, eu já tava preparado mesmo pra telefonar, ou ir no lugar, pra saber o que precisava.

Bom, esse parâmetro louco todo já fracassou algumas vezes nas últimas semanas, graças à… VFS, claro. Na primeira ocasião, nosso grupo de Design tava com um pepino – a gente tinha perdido quase todo o material de uma entrega porque um computador fritou na véspera da deadline -, e mandei um email pra saber como proceder. Já tinha em mente um plano do que fazer, mas mandei o email pro caso de, sei lá, alguém me responder algo mais útil. Eu realmente não esperava resposta. E AINDA MENOS esperava que ela fosse chegar em 10 minutos, e que fosse extremamente clara. A resposta era uma instrução, e uma sugestão, caso não conseguíssemos recuperar o trabalho a tempo de entregar (“coloquem na pasta o que estiver pronto, e tragam amanhã o que não estiver na pasta”).

Ontem à noite, mandei mais um email, dessa vez pro professor de Iluminação. A resposta, hoje às 8 da manhã, não englobava só minha pergunta, mas também sugestões de como melhorar o trabalho, e uma curiosidade genuína sobre minha experiência prévia como diretor de fotografia. Nas aulas eles sempre falam: se tiverem dificuldade, ou dúvida, é só mandar um email, que a gente dá um jeito. Não achei mesmo que funcionasse tão bem e, digo mais, que os professores seriam tão interessados nos alunos. E aqui cheguei num dilema que diz “Pra quê se importar, se a cada dois meses eles têm uma tuma nova?” enquanto a contra-resposta é “Como não se importar, se eles só têm dois meses pra garantir que a gente vai seguir em frente dominando o que eles ensinaram?”.

Antes de vir pra Vancouver, eu definitivamente iria com a primeira opção. Pra quê se importar? (aqui eu quis emendar outro assunto, mas esse post já tá muito grande e confuso). A cada semana que passa, porém, vou mudando de lado e dando importância a tudo. Como NÃO se importar, se o tempo que temos é tão pequeno? É só um ano. São só dez anos. São só cem anos. No geral, cem anos é nada. Numa esfera pessoal, se eu chegar aos cem (ou passar!), espero que cada um deles seja memorável. Definitivamente a mudança está trazendo mudanças.

UP16 – Streak Flare

Com a melhor câmera que existe, e uma lente maravilhosa, você está lá, fazendo sua foto, quando repara algo estranho no quadro. Uma parte onde as cores estão mais lavadas, o contraste mais baixo, uma névoa esbranquiçada aparece. Num susto, já vamos olhando dentro da lente à procura de poeira ou fungos, mas não há nada. Com uma análise menos desesperada, nota-se o reflexo de uma luz intensa no elemento frontal. “Ah, é um flare”, um defeito ‘genético’ das lentes, uma vez que em seu interior existem diversos elementos de vidro, separados por ar. O flare surge quando uma luz intensa entra, e acaba se refletindo de diferentes formas em cada um dos elementos internos da lente, podendo chegar ao sensor de formas muito diferentes.

Às vezes são manchas brancas, que tiram o contraste e a nitidez de determinada parte da imagem, oras são muitos desenhos coloridinhos, oras são padrões de arco-íris, semi-círculos e traços. O que nos é ensinado no primeiro momento é que flares são ruins, e que devemos sempre utilizar os parassóis das lentes para mantê-los fora das fotografias. O objetivo dessa coluna é subverter essa idéia. Flares não são sempre ruins, especialmente quando usados na criação de um estilo próprio de imagem.

Muitos meses atrás, na primeira Ultrapassagem aqui da OLD, apresentamos as lentes anamórficas, lentes raras e especiais, com muitas características únicas. De lá pra cá, encontramos diferentes alternativas para atingir resultados similares, com muito menos esforço e mais facilidade para se trabalhar. Entre essas características únicas que acabaram não-tão-únicas-assim, temos os flares anamórficos, que atualmente são moda não apenas nos mercados de baixo orçamento, mas também em grandes produções hollywoodianas.

Flares anamórficos sao compridos, e (geralmente) azuis. São bem diferentes dos flares convencionais e têm muito mais personalidade. Tomando como referência os filmes do diretor J.J. Abrams, flares anamórficos são uma constante, e e possível identificar sua autoria em poucos segundos de tela.

Para produzir esses famigerados flares, pode-se usar um filtro Streak Flare. Seu efeito é justamente a combinação dos dois nomes: ele cria flares que se esticam numa linha reta a partir da fonte de luz. Tradicionalmente é um quadrado de vidro com muitas linhas bem finas, todas num mesmo sentido. Existem diversas variações desse filtro, determinadas por dois fatores.

O primeiro desses fatores é a cor. Num filtro neutro, os flares terão a mesma cor da fonte de luz. Se a fonte for azul, os flares são azuis, e assim por diante. Existem versões onde o flare é colorido, que podem enganar melhor, afinal a grande maioria das anamórficas não muda a cor de seu flare, independente da cor da fonte luminosa.

O segundo fator é o espaçamento entre as linhas, dado em milímetros. Quanto mais próximas, mais intensos ficam os flares. Dá pra ver a diferença no efeito criado por essas distâncias no site da Optefex, fabricante dos filtros. É um equipamento caro e difícil de ser encontrado. Estão esgotados há bastante tempo nos fabricantes e só locadoras de equipamento estrangeiras têm esses aparatos. Com muita sorte, aparecem no eBay.

Atentando pras luzes desfocadas na imagem produzida, é possível perceber muitos pequenos traços verticais. São as linhas do filtro, por onde não passou luz suficiente para “preencher” o desfoque igualmente. Outra situação em que ele falha é para grandes fontes de luz, onde grande parte do quadro ganha uma mancha horizontal, com várias linhazinhas finas. Para fontes pequenas como lanternas, LEDs, faróis, ou lâmpadas sem difusão, o efeito é bem convincente!

Na próxima coluna, vamos falar um pouco melhor sobre coatings e propriedades do vidro que geram flares e outros defeitos ópticos que estamos constantemente combatendo!


Coluna Ultrapassagem, Publicada originalmente na Revista OLD #30, em Fevereiro/2014

Andi’s Room.

Nesse primeiro Term, na VFS, a gente tem muitas matérias técnicas. Ferramentas pra atingir resultados. Acho que a única matéria que não é técnica, é mais criativa, é Design 1. Nela, desde a primeira aula, estamos, divididos em cinco grupos de cinco ou seis integrantes, trabalhando na criação do estilo visual para uma animação cartunesca, que é resultado de uma mistura de Cloudy With a Chance of Meatballs e Super 8. É uma história com crianças e alienígenas, ambientada numa cidadezinha montanhosa do Canadá, Ladner (que na verdade tem o visual da cidade real de Revelstoke, e não da verdadeira Ladner), enfim. Recebemos um briefing, e cada equipe é responsável por criar os cinco personagens e um ambiente onde acontecem cenas importantes.

Nossa equipe, de número 2, ficou responsável pela casa e quarto de Andi. Andi é uma menina que vive com o pai, nos subúrbios da cidade, num loteamento barato, e mora no porão, onde fez seu quarto improvisado, dividindo espaço com o aquecedor e outras utilidades da casa. Andi não é muito sociável, gosta de fotografia e explora a cidade e seus arredores pegando carona. Ela não liga para seu visual, e poderia ser confundida com um garoto.

Na divisão de tarefas, cada integrante do grupo ficou responsável por desenvolver um dos personagens e, como temos seis pessoas, um seria responsável pelo desenvolvimento dos ambientes (o exterior da casa da garota, seu quarto no porão, e o banheiro, onde ela improvisou um estúdio de revelação fotográfica). Na primeira entrega, só precisávamos apresentar referências, então fiquei num papel meio de coordenar a equipe pra não faltar nada, e responsável pelo visual de um dos personagens. O resultado não foi muito legal. Na verdade, no geral, a gente ouviu muitas críticas e ganhamos sugestões de mudanças drásticas. As referências para o ambiente eram essas aqui embaixo. Os professores apontaram que a casa tava muito curta, o quarto não parecia um porão, ou improvisado, e não tínhamos nada representando o darkroom.

Para a segunda entrega, essa de forma não-oficial, eles só precisavam ver nossos esboços pós-críticas, e dar dicas do que desenvolver mais, ou o que mudar, para a segunda entrega oficial, que é nessa terça feira. Dessa vez, troquei de papel com o bróder que fez o ambiente, e agora ele ficou responsável por Eli, enquanto eu era o encarregado pelos ambientes.

Lembram quando eu tava declarando meu ódio pela pintura do escorpião robô? Então, com desenho eu tenho mais ou menos a mesma birra. Eu sei que não tá ficando bom, e isso dá uma desanimada enorme pra seguir adiante. Semana passada peguei várias horas durante o Sábado e Domingo, e fiquei rabiscando os três lugares. No fim, achei que eles tinham problemas, mas o visual estava consistente, sem estar demasiado pobre. Perspective is a bitch, então tava tudo torto mesmo, e assumi isso. Eram só esboços, então foda-se. O mais relevante, nesse tempo, é que eu realmente me diverti desenhando, e me sinto muito mais à vontade desenhando retas e coisas inorgânicas do que pessoas, ou poses. Ó aí o que saiu, se liga em como essa casa tá torta!

Como a casa tava ridiculamente torta, e a entrada do quarto da menina tava difícil de ver, adotei esse ponto de vista meio em primeira pessoa, com distorção de lente. Nessa hora, a experiência de fotografia ajudou um bocado, e segui a mesma linha para as internas.



No feedback dos professores, eles gostaram do nível de detalhe, apontaram umas questões estruturais na casa, várias alterações no quarto – tava tudo muito amontoado, e difícil de separar. Na realidade, Andi tinha mais ou menos metade do porão, e o resto do espaço é onde ficavam as tranqueiras da casa. Eles também sugeriram modelar os lugares no Maya, pra pegar os traços, perspectiva e dimensões, e depois desenhar com base nos modelos.

Quando chegou Quintafeira, resolvi tentar essa brincadeira, e fiz os modelos mais porcos do mundo, pra ter o que seguir. Não respeitei nada que diz respeito à um modelo organizado, ou limpo, e tenho muitos choques de linha, coisas tortas, faces faltando, enfim, mas conseguia ver o que queria, pra traçar em cima. Comecei com a casa. Depois de mais de uma hora apanhando do Maya, consegui renderizar com linhas e jogar o treco no Photoshop. O modelo e a primeira versão do traçado estão a seguir.


Isso foi na Quinta. Na Sexta, conversei com o resto da equipe, e pedi opiniões de pessoas que manjam de desenho, pra ver o que podia melhorar. Aí fiz uns ajustes e a versão final é essa aqui:

Aí, ontem o Paul – que foi uma das pessoas que pedi opinião, e que deu uma puta ajuda – precisava tirar umas fotos de textura pra um exercício dele, e combinamos de fazer isso juntos, aqui em downtown. Quando ele chegou eu tava terminando de modelar o quarto. Mostrei a casa finalizada, e ele ficou um tempão me explicando coisas de perspectiva, desenhanho, apontando, e provando que faz sentido, além de não ser impossível de dominar. Saímos, passamos horas na rua tirando fotos de becos, prédios, ruas, carros e tudo mais. Conversamos mais uma pá sobre desenho, perspectiva, e ele me passou várias técnicas pra melhorar o traço, e dominar melhor essa arte, afinal, uma pessoa que trabalha com imagem e sabe rabiscar coisas sensatas é mais apta a se expressar, do que outra que só consegue usar as palavras.

Voltei pra casa de noite, e terminei de modelar a parada.

Aí comecei a desenhar. Tinha um pedaço tosco, voltei pro modelo, redesenhei, terminei. Depois fui ajustando umas linhas, pra ficar mais bonito.

Depois de mais bonito, e tudo certinho onde deveria estar, fui brincando e colocando detalhes, coisas que caracterizassem o espaço como o quarto de Andi, e não um lugar aleatório, num porão. Quando já eram 2:40 da manhã, cheguei na versão final – enquanto conversava um monte com o Paul, mandando screenshots, e ele mandando screenshots do que tava fazendo lá, trocando opiniões em tudo.

O darkroom era o desenho que eu mais gostava. Achava que não dava pra melhorar a atmosfera que tava ali, e fiquei enrolando vários minutos até começar a modelar. Por fim, resolvi seguir um enquadramento bem parecido, e colocar mais detalhes, e de forma mais civilizada que no desenho original. Quando fui dormir, umas 3:30am, já tinha terminado, e esse tinha sido bem mais fácil – e mais limpo, em termos de modelo – que os dois anteriores.

De noite, sonhei com esse diabo de desenho, e ficava acordando o tempo todo, pensando que tinha esquecido de algo, que tinha perdido o prazo, etc, essas coisas normais de aflição com o trabalho. Depois de acordar às 6h30, 7h20, 8h40 e 9h30, resolvi levantar. Mal tomei café, e já tava desenhando. Esse foi mais demorado pra traçar. Tinha linhas mais longas, uma perspectiva mais louca. Depois de um tempo, já tava achando que o traço tava ficando limpo demais, e comecei a sujar. Não tive uma etapa intermediária, e depois de traçar as linhas principais, fui entupindo de detalhe. E ESSE TEM MUITA COISINHA.

Por fim, pra dar um clima de darkroom, fiz uma versão pintada de vermelho, com vinheta pro escuro. Na outra semana a gente deve colorir as coisas, e fazer as alterações sugeridas, então isso já é meio que um preview do que vem por aí, mas que vai contar com sombras muito mais trabalhadas – afinal, esse não tem nenhuma sombra mesmo!

Agora chega de desenhar por hoje – ou, pelo menos, pelas próximas horas. Tenho que almoçar e modelar uma garrafa de whiskey.

“Mas você já escreveu um post pra sua mãe, Tito!”

Eu sei, mas o blog é meu, e eu faço o que eu quiser. Então lê aí.

Resolvi escrever esse texto porque acabei de ler um texto dela, falando de algo tão comum, e tão triste, de forma tão bonita, mas tão bonita, que to chorando há vários minutos. Nesse processo, muitas coisas me ocorreram, e senti que era importante pra ela saber tudo isso, e colocando aqui, conto com a ajuda de vocês pra incentivá-la também.

Minha mãe sempre foi uma contadora de histórias. De minhas memórias mais antigas, bem pequeno, tenho várias dela lendo histórias de livros pra Lila e pra mim. Contando histórias de cabeça quando a gente viajava, inventando jogos com histórias, inventando histórias, fazendo companhia nas situações mais bizarras (lembro de estar sentado no banheiro, passando mal e vomitando pra cacete, e desesperado com isso, enquanto minha mãe tava ali do lado, pra ajudar no que fosse possível, e contando histórias novas pra me acalmar e distrair – e isso não foi só uma vez. Foram algumas).

Depois de uns anos, juntou com amigas e formaram um grupo, de contação de histórias. Lembro muito disso também, de ver as apresentações mil vezes, ver os ensaios, ouvir minha mãe preparando as histórias enquanto a gente ia pra escola, pedir opinião em alguns pedaços, perguntar o que a gente tinha achado, o que a gente achava que o público tinha achado, o que podia melhorar, que histórias eram mais legais que outras, e por aí vai.

Vira e mexe, quando ela lia algo muito incrível, ou nossas discussões muito loucas chegavam num ponto aleatório, ela lembrava de algo de psicologia (sempre Jung), e pegava o livro, e lia um trecho, que a princípio parecia imcompreensível para mim – um menino entre 13 e 25 anos – mas que depois de mais alguns minutos começava a fazer sentido.

E minha mãe sempre gostava de escrever. No começo tinha um blog. Quarto com Baú, um design rosa, e alguns posts, cada vez mais espaçados. Acho que durou menos de um ano. Parou. Começava a escrever histórias, via coincidências na vida e na história, amarrava as duas coisas, lia pra gente, pedia opinião. Com minha mãe não tem texto “mais ou menos”. E nessa onda de escrever, gostava de alugar os ouvidos de quem estivesse em casa. Às vezes era meu pai, às vezes era Lila, às vezes era eu. De vez em quando, ninguém queria muito ouvir, e só falava que tava bom, ou ótimo, nunca muitas sugestões. Eu sempre considerava isso uma daquelas “obrigações de família”, tipo almoço de domingo, que tem que ter todo mundo em casa, ou “ir todo mundo junto para o aniversário de fulano, e ficar pelo menos X horas na festa”, mesmo sem ninguém conhecido por perto. Enfim, essas coisas que a gente faz porque não tem opção.

Aí o tempo foi passando e não sei quando o quadro mudou. O ponto é que agora eu já morava em São Paulo, e tava muito menos tempo perto de minha mãe pra ter ouvidos alugados. Mas mesmo assim, ela não desistiu. Alugava os olhos agora, mandava por email, e pedia opiniões. Eu nunca tinha muito o que falar, pra mim, se um texto cumpre o que ele promete no começo, a chance de eu achar bom é grande. Mas dona Fátima não é assim (e devo muito a ela por isso). A coisa era mais interessante quando eu não entendia absolutamente nada do que tava escrito. As idéias não encaixavam, ou eu não entendia o que ela queria dizer. Aí eu escrevia de volta, falando que não entendi, e chutava um monte de coisa, se tava interpretando pelo caminho certo. Falava o que tinha gostado, o que não tinha.

A coisa ficou louca mesmo acho que no último ano de faculdade, quando ela também já tava fazendo um curso de pós-graduação, e tendo que entregar trabalhinhos escritos. Nesse mesmo ano eu tava escrevendo minhas colunas pra OLD (essas Ultrapassagens que aparecem aqui de vez em quando). E assim como ela sempre me alugou pra revisar textos, sempre que pedi a opinião dela em qualquer coisa escrita, o resultado ficava anos luz à frente do que tinha sido o ponto de partida. O NOME Ultrapassagem foi resultado de uma discussão nossa por email!

Enfim, sempre que eu mandava uma versão de coluna pra ela, rolava um grande vai-e-volta com alterações de um lado e de outro, até chegarmos num resultado que os dois achassem que estava bom. E aqui estamos falando de revisões que duravam HORAS pelo skype, com muitos emails e google docs compartilhados. Quando eu escrevia uma coluna muito em cima da hora e não dava tempo de passar por revisão, tenho CERTEZA que minha mãe lia na revista, mas nunca comentou nada que poderia ser diferente em nenhuma delas. Nunca agradeci por isso. Sempre soube que elas poderiam ser melhores, assim como me sentia mal de ter escrito em cima da hora. E, óbvio, não ia ajudar em nada se ela virasse pra mim e falasse “poxa, meu filho, esse texto tá pobrinho hein?” ou “podia ser melhor!”.

Ah, importante mencionar, as colunas sempre tratavam de temas técnicos muito loucos de fotografia. Loucos mesmo. Ao ponto de serem coisas desconhecidas para muitos fotógrafos. Então porque diabos eu escolhi minha mãe pra me ajudar nesse processo? Motivo principal: porque se estivesse escrito de um jeito que ela conseguisse entender, qualquer pessoa conseguiria. Motivos secundários: porque minha mãe escreve muito bem, e do mesmo jeito que eu brinco e faço coisas que muita gente chama de arte com uma câmera e computadores, minha mãe faz isso com palavras.

Estando longe de casa, ler os textos de minha mãe era uma forma de me sentir mais perto dela, mais perto de casa (e ao mesmo tempo, aprender umas coisas psicológisticas e entrar em viagens muito loucas de lembranças reinterpretadas em forma de texto), então aquilo que antes era uma obrigação de família, virava um passatempo e daqueles mais interessantes, que você não faz de qualquer jeito, pra acabar logo, que nem palavras cruzadas. Era um daqueles jogos onde você quer achar todas as respostas e segredos. E aí, todos os anos de convivência me ensinaram uma coisa: minha mãe não tem apego pela FORMA que as coisas estão escritas. O importante é passar a mensagem, é ser entendido. O texto não é pra ela, é pro leitor. Então, sei que ela não vai ficar magoada se eu disser que não gostei de um texto, ou sugerir trocentas alterações, e até dar uma podada no estilo “Fátima” de escrever. Ela não simplesmente “escreve”, ela brinca com as palavras, vai colocando uma junto da outra, brinca com os significados, brinca com as grafias, com a ordem das letras, com o som, é uma coisa diferente, que nunca vi escrito em nenhum outro lugar. E é FODA.

Agora que todo mundo viajou (Lila tá em São Paulo, eu to em Vancouver, meu pai tá em Natal) e infelizmente os gatos não tem muita opinião sobre os textos. Na vontade de continuar tendo feedback e opiniões, e continuar escrevendo, ela criou um blog e tava escrevendo direto. Não sei se é porque a coisa tava meio em baixa, mas já tem duas semanas que ela não publica nada. Cada um dos posts lá é muito foda, e fala de temas assustadores como cabelos brancos, envelhecer, essas coisas que a gente é socialmente ensinado a temer. É como ver um pedacinho do mundo pelos olhos dela – e é um olhar tão mágico que dá vontade de ficar lendo mais e mais. Por isso, meu apelo: Mãe, não pare de escrever, não pare de contar histórias!

Muito do que vejo, leio, penso e interpreto, devo a você, que me ensinou que o óbvio e o normal devem ser evitados sempre que possível, mas não pra ser do contra, e sim porque existe um jeito mais bonito e humano de se fazer as coisas e ver a vida. Me ensinou também que o caminho mais simples pode ser o mais rápido, mas quase nunca rende boas histórias – e haja histórias contadas nesse blog porque, sempre que posso, evito o jeito comum de se fazer as coisas. E eu ainda lembro das histórias que você contava quando eu era pequeno, claro, e mais: aposto que quase todo mundo que já as ouviu ainda lembra.

Ah, vou ficar devendo pra vocês a história de quando a gente achou um passarinho machucado e levou prum centro do IBAMA, de madrugada. Quem sabe ela mesma não resolve contar essa história, do jeito dela, e eu conto depois como era minha perspectiva?

Histórias (in)comuns.

Ao longo do fim de semana testemunhei duas situações incríveis, uma delas me fez bater a cara na parede, com meu preconceito, e a outra é só uma curiosidade mesmo. Vou começar com a menos relevante.

Ontem, voltando pra casa depois do almoço, pingando de suor – suei mais ontem do que na escalada da montanha toda – passei por uma galera na rua que tava pegando água numa fonte, dessas de frente de prédio mesmo, e jogando no rosto, e nos amigos, pra se refrescar, tamanho o calor. E eram canadenses mesmo, não eram turistas, nem mendigos! Acho que eu nunca teria coragem de fazer isso em São Paulo. Primeiro, porque a água estaria podre, segundo porque na hora que eu encostasse na fonte, ia aparecer um guardinha ou segurança pra me enxotar, com certeza.

Agora, a segunda história, mais relevante. Sábado, tava voltando do Walmart, descendo do Seabus, abraçado com meu balde e lixo, e saí logo atrás de um grupo de três jovens (dois rapazes e uma moça), meio mal vestidos, meio com cara de mochileiros, e que riam de tudo, apontando pras pessoas ao redor. Logo pensei que estavam dando uma de malandros, tirando sarro da galera, e fechei a cara.

Como o barco tava lotado, o ritmo de caminhada era lento, e não tive opção senão continuar perto deles. A saída vai direto por um corredor. Nesse corredor, tem uma portinha que você pode passar pra pegar o caminho pra entrar no barco de novo, ou sair pelo lado oposto – vazio. Lá foram os três pela portinha, se achando os espertões, driblando a massa que seguia pelo corredor lotado.

Uma coisa importante de lembrar: sempre que tem gente saindo do Seabus, tem alguém disparado pelos corredores, tentando chegar no barco antes de ele partir. Estava o grupinho atravessando o corredor pelo qual as pessoas vêm, e passa uma mulher a toda velocidade. No que ela passa, o celular dela cai. Pronto, pensei que aí ia confirmar todas as minhas suspeitas, eles iam pegar o celular e partir.

Acabei quebrando a cara. O celular mal encostou no chão, a menina já tava abaixando pra pegar e correndo atrás da mulher, enquanto os dois camaradas tentavam chamar a atenção da moça e dos seguranças, com gritos, pra ela não embarcar sem celular.

Tenho certeza que, do jeito que aconteceu, nada mais passou pela cabeça da menina além de “EITA PORRA, PRECISO ALCANÇAR AQUELA MULHER PRA DEVOLVER O CELULAR DELA!”. E isso me impressionou muito. É claro que eles conseguiram devolver, e apesar de estar redondamente enganado sobre o grupo, fiquei muito feliz em estar errado. De lá pra cá, já tenho olhado tudo ao meu redor de outro jeito, sem o padrão de “não pode vacilar, porque vai ter alguém pra te sacanear”, e isso é muito tranquilizador.

Ah, mais uma pra essa lista, que lembrei agora: a bike de um colega nosso – uma bike novinha, caríssima – tinha sido roubada, na primeira semana de aula, de uma vaga NA FRENTE da escola. Ele tinha ficado só com um das rodas. Prestou queixa na polícia e ficou torcendo pra encontrarem mas, ao mesmo tempo, já se preparando pra comprar uma bike usada, e mais barata. Ontem a polícia ligou pra ele, dizendo que tinham encontrado a bicicleta dele e prendido o ladrão. Nos próximos dias ele vai receber bike de volta. Dá pra acreditar nessas coisas?

IKEA e a Mobília.

Fim de semana agitado rende mais de um post! Era pra ter escrito ontem, mas acabei de arrumar tudo muito tarde e precisava dormir pra ir pra aula hoje.

Bom, o domingo começou de madrugada. Apaguei às 22h de sábado, derrotado pela montanha. Resultado, acordei antes das 4h da manhã de Domingo. Tinha combinado com o Fernão de ir na Ikea umas 10h30, então tirei umas horinhas pra resolver os benditos desenhos da aula de Design (que ainda tenho que terminar hoje), e umas paradinhas de Team Building. No fim das contas, todo mundo atrasou, e partimos (Fernão, Maísa e eu) para a Ikea perto de meio dia, com direito a gato-e-rato no metrô, onde eles desceram por uma escada e eu subi pela outra, e depois o contrário, tudo isso enquanto mandávamos mensagens pelo celular.

A viagem de Skytrain e ônibus levou uma hora, e no meio do caminho a gente ficou vários minutos perdidos procurando o ponto de ônibus certo. Ah, e tava fazendo UM CALOR que não é desse país, e a gente na rua, debaixo de um Sol de rachar. Aquelas camisas de $3 foram uma benção, porque já tava estreando uma delas.

A Ikea é tipo a Tok Stok, com algumas diferenças básicas. Tudo é de boa qualidade, e você consegue mobiliar uma casa inteira em poucos minutos. Ao invés de tudo ser ridiculamente caro, como é na Tok Stok, é ridiculamente barato.

Eu e a May já tínhamos escolhido nossos móveis a dedo pela internet, e fui lá porque tava indicando que a loja tinha todos os itens que queríamos. O delivery tava salgado a $99,e podia ser que melhorasse indo pegar na loja. A idéia original era dividir a entrega entre nós, pra ficar mais em conta pra todo mundo.

Depois de três horas passeando pra cima e pra baixo, anotando código e discutindo possíveis alterações por whatsapp com a May, resolvemos começar nossa jornada de saída do showroom. Nesse processo, encontramos com o Luka, um colega de curso, que tava lá pra comprar uma mesa, e resolveu entrar na festa do delivery.

Depois do showroom, quando achei que a loja tava acabando, começavam os setores de acessórios. Pratos, copos, toalhas, almofadas, tapete, vasos, plantas falsas, coisas de cozinha, decoração, o caralho a quatro. Muitos e muitos espaços disso.

Depooois disso tudo – eu passei quase correndo, porque não tinha nada que me interessava lá. Aí chegava a parte do self-service de verdade, onde você pega todos os códigos de produtos (com corredores e prateleiras indicados no showroom), e vai colocando as caixas no carrinho. Tudo bem se você for comprar pouca coisa, mas quase me quebrei todo nessa parte, levantando caixas pesadíssimas, apelando pra todo o meu senso de equilíbrio e colocando as paradas no carrinho.

Essa parte é um galpão. GIGANTE. Sério, acho que é o maior espaço que já estive dentro. Surreal, com prateleiras, caixas, corredores e estantes do chão ao teto, abarrotadas de móveis de todos os tipos.

Saí feito barata tonta procurando os lugares certos e carregando as caixas. No fim das contas, tinha achado tudo, menos a mesa, que o computador dizia “request personal assistance”. Fiquei quase meia hora até conseguir achar um diabo de um funcionário. Por fim, o carinha imprimiu uma folha de papel com um código de barras e disse pra apresentar no caixa.

Depois disso, consegui a mesa – que pesava mais 30kg. Todo mundo já tava com suas mobílias e fomos investigar jeitos de transportar tudo pra nossas casas em downtown. O transporte da Ikea só ia chegar no dia seguinte, e custava $79. Resolvemos pegar dois táxis, e rachar os custos. Vim com o Luka, e cada um de nós gastou $25.


Carrinho de compras, com uns 80kg de madeira.

O taxista despejou a gente aqui no prédio – ele literalmente disse que não podia continuar a corrida, que precisava voltar pra Richmond. Tiramos tudo do carro, inclusive as coisas do Luka, que ia ficar em oooutro lugar. Ele me ajudou a carregar minhas coisas pra cima, e como eu precisava entregar o robô escorpião, peguei uma carona no táxi dele até perto da VFS.

De lá, AFINAL, fui almoçar – já eram 6pm e o calor continuava ridículo. Combinei com a Luísa de pegar as ferramentas dela pra montar os móveis, e fui encontrá-la na praia. Desci de bike e, literalmente, pedalei uma única vez, ao longo de oito quadras, porque era tudo descida.

A praia tava LOTADA. Nunca vi uma praia tão cheia antes – e olha que vi muita gente em Salvador. E era um clima muito festivo, uma coisa louca. Peguei as ferramentas com a Luísa, que tava lá aproveitando o Sol e desenhando (as coisas de Design também).

Cheguei em casa umas 7pm, e queria terminar de montar toda a mobília (duas cadeiras, dois pufes, um móvel de TV, uma estante e uma mesa expandível) até 22h, pra dormir cedo. Até parece que eu consegui, né?

Fui acabar quase meia noite, suando feito um condenado, porque o calor não deu trégua, e mesmo com a varanda aberta, o ar não tá circulando nos últimos dias. No processo de montar os móveis, prendi bem uns cem parafusos, coloquei suportes, apertei tábuas, levantei e me perdi no manual, foi um Lego, versão doméstica, com instruções tão complexas quanto qualquer cenário elaborado.

Meus dedos já estavam todos no bagaço, e eu já tava morrendo de cansaço. Só tive força pra tomar um banho, pra voltar a ser gente, cair na cama e dormir.

Hoje de manhã dei uma olhada na sala, e apesar de ter móveis, o apartamento agora parece maior do que vazio. Que tal? Agora já tenho mesa e cadeiras, que tornam o processo de trabalhar e escrever algo muito mais agradável!


A casa, mobiliada.

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