August 2009 at 10:45 pm

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O Último – 4:42 A.M.

Assim que acordou naquela madrugada de terça-feira, Maurício teve certeza que aquele seria o último dia da sua breve vida. Não havia nada especial no ar, nem homens misteriosos de plantão ao lado da sua cama. Nada estava fora de lugar e ainda assim, ele conscientemente sabia que o fim estava marcado no tempo.

“Sensação estranha, essa. Tem muita coisa a ser feita, mas… de onde vem toda essa Paz?”

Genótipo.

Lila

Sabedoria de Professor.

“A partir do momento que a gente sai do útero da mãe, as coisas só pioram. Acho que essa é a aventura de viver!”

Thomas – História.
- Lições que só se aprendem assistindo aula aos sábados.

Tipo…

Peguei, tipo, raiva dessa, tipo, palavra. Tipo assim… Faz, tipo, sentido?

Sala!

Nossa casa agora tem sala!
Nossa sala tem uma cama!
Nossa sala é laranja!

Acho que isso garante estranhezas suficientes pro cômodo. E uma das cortinas é feita com sacos plásticos, dando um tom azulado para o ambiente. Isso sem comentar a varanda estrategicamente posicionada!

Co-Respondentes – Parte VI

Co-Respondentes

Na manhã do dia 29 de Abril, Rafael entrava elegantemente na agência no seu horário habitual quando foi interrompido por Marina, a recepcionista.

– Bom dia, Nina!
– Bom dia, Rafa. Olha, a Luísa já chegou. Está esperando na sua sala.
– Luísa?! É algum contrato novo? Marina, pelo amor de deus, não me diz que eu deixei uma cliente esperando!
– Que cliente, rapaz! É sua estagiária!
– E… Estagiária? Que estagiária?
– Hm… Então foi isso que o Carlos quis dizer com “dê as más notícias ao Rafael”… -
a moça murmura para si mesma, num tom alto o suficiente para o rapaz ouvir.
– Ô Marina, que história é essa? Más notícias? Estagiária?
– A chefia tava procurando alguém que fosse paciente e que pudesse receber uma mãozinha. Aí seu nome apareceu. Novo na empresa, recém formado, ótimo profissional pra acompanhar uma estagiária sem traumatizar a moça!
– Ma-ra-vi-lha!
- completa Rafa, ironicamente - Então acho que não tenho opções, certo?
– É, mais ou menos isso. Boa sorte.
– Obrigado, Nina. Acho que vou precisar.

Muitíssimo mau humorado, Rafa seguia resmungando em direção a sua salinha no fim do corredor enquanto ouvia piadinhas e assobios de todos os colegas, sem distinção de gênero.

– Aí, publicitário-modelo! Mostra pra galera que você ainda sabe cuidar de uma estagiária! – um colega grita do último cúbiculo pelo qual passara.

Com base na expressão da garota e no tom de vermelho em seu rosto, sim, ela havia escutado perfeitamente o que o “colega” gritara.

Bom dia - Rafael diz, sério, como se nada da balbúrdia tivesse acontecido.
– Bom dia - ela responde, passando as mãos no rosto e tentando expressar normalidade.
– Luísa, né?
– É…

– Então, primeiro de tudo, sejamos honestos. Eu não pedi pra ter uma estagiária, nem sei como você pode me ser útil.
– Já que é pra ser honesta, eu também não pedi um chefe resmungão!
- a moça responde ofendida – E não acho que ficar discutindo vai adiantar muita coisa. Essa é uma oportunidade importante pra mim.
– Importante? Você tá falando sério? Qual a importância de ser estagiária de uma agenciazinha de publicidade, de um sujeito recém formado que não pega um contrato que preste? – Rafa encara o quadro-storyboard atrás de sua mesa enquanto fala. A moça está sentada numa cadeira atrás dele e ele não repara seus olhos marejados enquanto ela sai sem fazer barulho.

Ela cruza os corredores a passos largos, sob os olhos de todos, estupefatos, silenciosos e um tanto quanto arrependidos. Para ela, nada daquilo existe e toda a sua concentração está em sair daquele lugar horrível. Ele se vira ao ouvir o estalo da porta se fechando. Pelo vidro fosco, consegue distinguir a garota já longe, perto da recepção.

Porra, Rafael, você é um ignorante!“. Ele fica na sala, ainda sem reação enquanto o telefone começa a tocar. É da recepção.

Fábrica.

Concluo hoje que tenho milhares de engrenagenzinhas dentro da cabeça, sempre girando e trabalhando incansavelmente, amarrando pontas soltas e idéias sem sentido. Olhando de cima, acho que é um tear gigante que costura meus pensamentos, ligando uns aos outros, sem deixar nenhum de fora.

Todo e qualquer pensamento tem mais de uma referência associada. No mínimo uma entrada e uma saída, distintas. Não existe um botãozinho de “Desliga”. Só o de “Liga”, que tá ativado há longos anos sem descanso.

Os ciclos das engrenagens se alternam com frequência. Ora mais acelerado, ora mais pacífico. Procuro com esforço, mas até hoje não encontrei alguém que funcione nos mesmos ritmos e seja capaz de decifrar boa parte do que me passa.

Antes de dormir, consigo ouvir o “tic-tac-tic-tac” contínuo, terminando os pontos do dia e puxando a seda dos sonhos.

Profunda sensação de que tenho muito a oferecer para o mundo, muito para tentar aliviar as infelicidades do caminho. Meio pão e circo, mas um tanto quanto intrincado.

O Eterno Conflito.

Desde o início do crescimento das cidades, há uma constante dúvida dentro do homem, que se expressa na forma do conflito “morar na cidade ou fugir para o campo?”. Os arcadistas já escreviam sobre as belezas e encantos do ambiente natural enquanto muitos modernistas ressaltam as características da cidade. Sua velocidade, suas possibilidades, suas vantagens.

Saindo do âmbito literário para algo mais real, palpável, facilmente podemos apontar os problemas do lugar de onde queremos sair, mas dificilmente conseguimos identificar os defeitos de onde sonhamos em chegar. Um morador das grandes cidades vai criticar a rotina, o stress, o trânsito, a constante sensação de que os dias são um turbilhão de coisas mal aproveitadas. Deslocando a pergunta para o campo, ouve-se do tédio, da falta de opções para o que fazer, do atraso tecnológico, da vagarosidade de tudo.

O ser humano, como um bom competidor da seleção natural, é uma criatura que se adapta ao ambiente onde vive. O homem da cidade, ao migrar para o campo, inicialmente vai achar tudo maravilhoso, porém, após algum tempo, começará a sentir falta de ir a um cinema, uma livraria ou sair para uma balada com os amigos. Estes são apenas alguns exemplos de situações dificilmente encontradas no campo. A pessoa do campo, por sua vez, ao pisar na cidade grande ficará maravilhada com as luzes, o progresso, os altos edifícios e as infinitas possibilidades de atividades. Não muito tempo depois, sua cabeça acostumada com a tranquilidade e silêncio do campo vai estar girando a toda velocidade, fazendo-o sentir como se não houvesse um momento sequer de descanso naquela terra.

Apesar de cada pessoa funcionar de uma forma diferente, há aquela condição que se adequa a quase todos os casos: férias. O habitante da cidade pode fugir para o campo por alguns dias ou semanas com o inutito de relaxar e fazer apenas o que lhe vier à cabeça, voltando à vida urbana antes que toda aquela calma comece a lhe dar nos nervos. Por sua vez, quem é do campo pode dedicar um tempinho à correria alucinante das metrópoles, voltando à sua paz quando lhe convier. Essa alternativa geralmente é mais benéfica que uma migração definitiva. Agora, em termos de adaptação e identificação com o local onde vivem, existem aqueles que encontram paz nas cidades ou aventuras no campo. Esses sim se identificam com seus lares.

Co-Respondentes – Parte V

Co-Respondentes

Salvador, 12 de Abril de 2009

Olá Rafa!

Poxa vida! Agora já posso dizer que conheço um publicitário de sucesso! Eu faço faculdade, ainda, mas você tem que me dar um crédito porque medicina demora mais pra terminar do que a maioria dos cursos! Tô no sétimo semestre, então ainda tem muito tempo a correr até eu conseguir meu diploma. É meio desapontador pensar assim, mas…

Sobre meu gosto musical, digamos que ele não é tão baiano-pop assim. Já tive minha fase de carnavais, mas agora não consigo sequer ouvir um começo de axé sem querer sair do ambiente. É tudo muito igual, muito clichê, sabe? Você pega uma das letras e, usando as mesmas palavras pode escrever todas as outras! Prefiro algo mais calmo, uma bossa, um rockzinho leve, um violino, que por sinal já tentei aprender a tocar, mas desisti. Em resumo, não posso dizer que contava com o apoio dos vizinhos. Você gosta de quê, além de Chiclete? Toca algum instrumento?

Abraços,
Carol.

PS – O Felix manda um miado pra você.


Belo Horizonte, 21 de Abril de 2009

Carol,

Medicina, hein? Caramba! Parabéns! E não fique tão apressada em pegar seu diploma! Aproveite bem a faculdade, conheça pessoas, aproveite que não tem que se sustentar ainda e curta o que puder! Momento nostalgia? Talvez… Eu gostava de cair na farra TODO FINAL DE SEMANA nos tempos de facul. Saía na sexta de manhã para a aula e só voltava no domingo, quase segunda feira.

Me chamar de publicitário de sucesso é um tanto quanto querer forçar a barra! Tô no começo da carreira e nenhum “contrato milionário” veio parar em minhas mãos (ainda) lá na agência. Mas te aviso assim que estiver fazendo comerciais com os bichinhos da Parmalat!

Pelo tipo de música, eu diria que você é uma moça comportada, que dorme antes das onze, não bebe, não fuma e só usa saias abaixo do joelho. Hahaha. Tô brincando! Falando de roupas, qual sua cor preferida?

Música é constante na minha vida, quase um vício!  Gosto de tudo que consiga me prender no ritmo. Pode ser axé, pagode, salsa, tango, funk, rock, techno, tudo! Assim como você, minhas aventuras com “tocar música” também não foram muito bem sucedidas. Tentei violão, baixo, bateria e até tuba, mas nunca consegui nada muito concreto. Acho que eu serei eternamente apenas um apreciador.

Abraço,
Rafa.

PS – Felix? Miado?
PS2 – Com base em meus cálculos e estimativas, você tem 25 anos. Aposto um sorvete nisso. Ganhei ou perdi?

Apesar de sentir que Rafael não é nada parecido com ela, Carol não consegue parar de responder as cartas. E enquanto nenhuma nova chega, ela relê as velhas, pensa em coisas para perguntar, imagina como ele é. Será que é alto, baixo, gordo, magro? Tem barba ou não tem? Cabelos claros ou escuros?. “Será que ele existe mesmo? Será que não é só alguém brincando comigo?”.

As dúvidas  são uma presença constante nessa sua linha de pensamentos. Por fim, concluiu que pediria uma foto na próxima resposta.

– Moça, são sessenta e cinco centavos - o atendente em treinamento dos Correios fala um pouco mais alto, tirando-a de seus devaneios.
– Oh, desculpe! Aqui estão. Obrigada – ela pega uma pequena pilha de moedas, contada e recontada antes de sair e separada no bolso da calça, entregando-a ao rapaz.
– Obrigado, tenha uma boa tarde – ele conclui, como manda o manual em cima do balcão – Próximo!

Salvador, 28 de Abril de 2009

Rafa,

Você é um garoto da farra, pelo visto! Não é, como você adivinhou, muito meu tipo de coisa, mas, sair com os amigos pra conversar e passear é sempre bom. É a companhia que faz cada situação especial, seja na praia, no teatro, num parque, enfim, acho que deu pra pegar o espírito da coisa. E nessa história de dormir antes das onze você se enganou feio. Por exemplo, só respondo suas cartas depois das duas da manhã!

Beber, até vale, de vez em quando, mas é coisa rara. Sobre o cigarro, eu te desafio a encontrar meia dúzia de estudantes de medicina, por aqui, que fumem. No primeiro semestre tem um professor fantástico de anatomia que, literalmente, te convence a parar de fumar! Todo ano, a primeira frase que ele solta ao entrar numa sala de calouros é: “Eu aposto meu carro que qualquer possível fumante nessa sala vai desistir do cigarro antes do fim do semestre”. Até hoje ele tem o carro. É uma coisa meio mágica, meio absurda, mas ele sempre vence.

Meu caro, saia abaixo do joelho nem minha mãe usava quando tinha minha idade! Hahaha!

Não posso dizer que entendi completamente sua pergunta. Você se refere à minha cor favorita, pura e simplesmente, ou à minha cor favorita para roupas? Em ambos os casos, a resposta é Laranja. Por que? Qual a sua favorita?

Beijo,
Carol.

PS – É, meu gatinho preto da carinha branca, igual ao desenho animado!
PS2 – Sinto muito em lhe informar, mas você perdeu! Passou perto, mas errou. Tenho 24. Agora me deve um sorvete. Vou cobrar!
PS3 – Desde ontem, só se fala em gripe suína na faculdade! O terror se alastra para todos os lados! É meio egoísta de se dizer, mas, ainda bem que não tenho amigos ou parentes em São Paulo ou Rio! Você tá acompanhando essa onda também, ou é só coisa de estudantes de medicina?

Cartas!

É impressionante como um assunto puxa outro, que puxa outro. Fatos ilustram os assuntos. Dificilmente uma carta vai ser menor que a que a precedeu!

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