Quem é que dorme com essa perspectiva na cabeça? Tô animado, ligado, eletrizado.

Convenhamos que há uma série de lendas sobre o departamento de Comunicação. E quem sou eu para contradizê-las? Sim, é verdade que a gente fica o dia inteiro na net - orkut, youtube e derivados -, no ar-condicionado e ouvindo música altíssima, mas a moleza real é pequena.
Música techno é obrigatório no currículo de quem quer participar de nossa pequena saleta, apesar de não ser o nosso único agrado musical. É preciso também paciência para lidar com os pessoas desesperadas, tarefas maçantes e e-mails que não fazem sentido. Criatividade é saudável para tudo no nosso departamento, além da capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. É recomendada habilidade de decifrar códigos ou garranchos, sejam de pais ou de crianças. Ah, e nunca - NUNCA MESMO - confunda o sobrenome de acampantes no blog. Você pode ter que sair correndo do campo pra corrigir, antes que os pais descubram.
Ser da Comunicação implica não poder negar nenhum pedido de monitor/coordenação/programação, é caçar letras e cifras ocultas por véus místicos na rede, é confirmar que bacalhau de fato existe, e não é um boato, é ter habilidade de imprimir e corrigir listas e mais listas de acampantes, que mudam ou são atualizadas a cada minuto durante os primeiros dias da temporada. A gente trabalha, todos os dias, da primeira alvorada - tirando fotos e filmando tudo - ao fim da reunião - fazendo posts, provavelmente atrasados, pro blog. É preciso ter disposição e boa memória. A gente sabe a cara, nome, sobrenome, grupo de idade, equipe, nome do pai, nome da mãe, monitor e detalhes sórdidos de todos os acampantes. A gente sabe o que cada acampante escreve e lê.
Em menos de um dia, mais de mil fotos passam por nossas mãos e cartões de memória. Fotos essas que não muito tempo depois serão filtradas por outro colega, na mesma sala, reclamando que tem muita foto borrada, e perguntando "por que diabos as pessoas não viram a câmera para um lado só, na hora de bater a foto?". Na comunicação se aprendem vários atalhos computacionais (Win+E, Ctrl+K, Ctrl+L, F2, Ctrl+X, ping -t, Win+D e por aí vai). Debate-se muito sobre fotografia, lentes, programação web e amaldiçoa-se o Banco de Dados. Ah, já faz alguns anos que o Jogo de Vilas também é responsabilidade da Comunicação. Não faz sentido, mas a gente não abre mão dessa "tarefa/conquista".
Todos os dias, sonhamos que no dia seguinte as coisas serão mais leves. Temos a vantagem de estabelecer nosso próprio ritmo de trabalho, mas se a folga é prolongada, é garantia que a noite será diante de uma tela de LCD. Ser da Comunicação é dormir depois do almoço, acordar na hora do banho e perguntar "O Descanso já acabou?". Ser da Comunicação é jogar Espirobol na madrugada, pra esquentar e tomar banho. É jogar frisbee sempre que se tem a chance. É registrar todos os melhores momentos através das lentes de uma câmera não-confiável, é dar abrigo e cobertura para monitores desesperados, com calor, cansados e afins. Ser da Comunicação é quase ser obrigado a furar fila em todas as refeições e perder muitas sobremesas pra poder tirar o atraso em alguma missão ou imprimir e dividir os e-mails que serão entregues no Descanso. É invadir a cozinha várias vezes durante a noite, aprendendo a localização dos melhores artigos (brigadeiros, sorvetes, queijadinhas, biscoitos e quitutes diversos), para usar como chantagem em cima dos monitores.
Rede Wireless no Arraial? Comunicação.
Compartilhamento de Arquivos? Comunicação.
Filmagens? Comunicação.
CD do Arraial? Comunicação.
Mentiras generalizadas e falsificações? Comunicação (ex: Invasão do Big Brother, 2008 / Identidade: Timóteo, 2010)
Se dá pra ter tecnologia no meio, é com a gente. Fazemos a mediação entre o mundo mágico que é o Arraial, e o mundo trágico que é o Real (não tão trágico, mas foi só pra não perder a rima). Para o bom cumprimento dessa missão, vivemos, nós mesmos, em um universo paralelo, situado entre as duas partes, e gostamos bastante disso.
Não podemos dizer que a ética, em escala nacional, foi comprometida recentemente. Não é pelo fato de a corrupção ser notável no momento atual, que podemos dizer que ela era inexistente num momento anterior. Desde seu descobrimento, o país é carregado pelos corruptos enquanto o povo assiste, inerte - afinal eram, ou não, corruptos, os portugueses que davam mixarias em troca das riquezas da terra? E os índios aceitavam com tranquilidade.
Esse não é o modelo ideal de ética para a nação. Na verdade, esse sequer é um modelo bom. Mas mudanças estão ocorrendo e muitas outras estão por vir. O maior sinal diso é que agora todos sabem que existe corrupção, e mais: sabem quem são os corruptos. O próximo passo em direção à ética é desenvolver uma forma de coibir esse comportamento e essas pessoas muito comuns - mas não exclusivas - na política, por exemplo.
Não é um passo brusco. Constitui-se de vários passos menores. É preciso ética no cotidiano. São as pequenas corrupções que embasam o "jeitinho brasileiro". Não é de valor ético aquele sujeito que faz discursos radicais contra corruptos em Brasília, mas fura a fila no supermercado assim que surge uma oportunidade, ou pára seu carro onde é proibido estacionar, e uma série de outras situações que muitos de nós encaram com naturalidade ou como atitudes lógicas.
Agir em benefício próprio em detrimento do coletivo nunca pode ser uma escolha óbvia para um cidadão ético, reto. Isso, como já foi dito antes, não se incorpora rapidamente aos valores da socidade. É preciso que cada um de nós fique atento, condenando a corrupção em qualquer instância, ao mesmo tempo que valorizamos os que agem honestamente.
Abrindo o post, foto de Lucy Lins, e fechando o post, foto de Renata Reis. As outras todas são minhas. Quinze dias com um pouco de prática e novos conhecimentos. Foi difícil escolher só algumas pra colocar aqui. Todas são do Campismo Selvagem e do Encerramento, exceto essas duas já referidas anteriormente, em preto e branco, e a da árvore, que foi para o Jogo de Vilas.
















Fim de temporada é sempre a mesma coisa. Dois dias de sono intenso e mais três dias ouvindo voz de crianças a todo momento chamando "Tio" e "Tia".
Saudade dos amigos, dos jogos, das risadas e das piadas.
"Alvo-reggae, alvorada, alvo-reggae,
Hoje o meu alvo é brincar.
Sem ressalvas, estou a salvo.
Sob o Sol pro céu eu vou cantar!
E se eu perder ou se eu ganhar,
Nem vou ligar
E se eu cair, e seu chorar,
Alguém vai me ajudar.
Hoje vai ser um dia tão especial
Nada vai me fazer mal com
Alvo-reggae, alvorada!"
Sonhei que estava morrendo. Definhando gradualmente, de dentro pra fora, de forma visível. Vi meus olhos opacos num espelho de metrô, encontrei conhecidos no caminho e fugia deles, ante meu estado. Senti saliva empapar meus cabelos que grudavam insistentemente sobre o rosto. Sabia, (in)conscientemente, que era um sonho e sabia que tinha a escolha de acordar, mas perseverei até onde dava, para saber se superaria o obstáculo. Não consegui chegar ao final e acordei antes do tempo. Não foi algo agradável, mas foi interessante, admito.
Acordei com saudade e preocupado com minha irmã. Me esbarrei nela assim que saí do escritório e trocamos um abraço apertado. É, a vida é bonita demais.

Quando comecei a vir pro Arraial, em Junho de 2002, eramos, no máximo, trinta acampantes, divididos em dois ou três grupos de idade, poucos monitores, algo num clima bem "familar" mesmo. Hoje são cento e oitenta crianças em seis grupos de idade. Pode-se dizer que o acampamento cresceu um bocado nesses oito anos.
Eu nunca tinha parado pra pensar como seria estar do outro lado. A única idéia constante é que deveria ser divertido do mesmo jeito.
Dá pra afirmar, com muita margem de acerto, que os acampantes fiéis da nossa época foram tão apaixonados pelo espírito do Arraial que todos voltaram, assim que puderam, do outro lado da equipe. Antes, acampantes, hoje, monitores. Era comum falar que queria voltar como monitor, mas não dava pra prever que nossas promessas e vontades seriam tão determinadas assim. Olhando a mesa de reuniões ontem, pude reconhecer todos os rostos que cuidaram de nós quando menores, lado a lado com os nossos, numa mesma família, num mesmo intuito de fazer felizes também muitas crianças como fomos feitos um dia.
O sítio estava silencioso e cada um contava como tinha sido seu dia, suas dificuldades, dúvidas, comentários. Apesar da larga experiência como acampantes, essa era a primeira temporada, para muitos, como monitores. Acreditem, é algo completamente diferente. Eram agora monitores, lado a lado com os monitores que foram seus monitores!
Estar no time do Arraial é mais que um trabalho, é mais que um compromisso, é uma alegria indescritível. É todos os dias acordar e pensar que o dia vai ser mais animado e cansativo que o anterior, e isso ser motivo mais do que suficiente pra levantar e encarar a legião de crianças no café da manhã. É tomar banho frio todos os dias sem nem considerar uma reclamação e usar um shampoo diferente a cada dia, emprestado dos acampantes que nem sequer sabem disso. É dar risada de todas as piadas (sem exceções), sejam elas engraçadas ou não, é sorrir o dia inteiro, é gargalhar nas conversas da madrugada. Ser acampante e depois entrar pra equipe é relembrar os velhos tempos, tentando sempre fazer melhor que nossos mestres que agora são colegas.

Sem sombra de dúvida, o Arraial é minha aldeia, e todos que passam por aqui são irmãos, de sangue e de história (ou seria "de sangue e de selva", de acordo com Zen - Jan2009). Não abro mão de nenhuma temporada, por mais difícil que ela seja - por motivos internos ou externos. A memória torna impossível cantar a última alvorada, no último dia, sem tremer a voz ou derramar uma lágrima. O Arraial é minha aldeia.
Trilha: Jarbas Bittencourt - Aldeia Arraial (Alvoradas e Outras Canções)