



É um fim de tarde bastante ensolarado de uma quinta feira comum na cidade de Belo Horizonte. Rafael chega em casa depois de um exaustivo turno na agência onde trabalha. À porta de seu apartamento, depara-se com um pequeno embrulho que chegara pelo correio. Ele pega o pacote.
Destinatário: Carolina Martins
Rua da Aurora, 927, Ap 32.
01450-100
"Estranho... É meu endereço, mas, até onde eu saiba, aqui em casa não tem nenhuma Carolina Martins...". Na cozinha, ele abre cuidadosamente o pacote e se depara com um livro. Perto do Coração Selvagem, por Clarice Lispector. Primeira edição, datada de 1943. No marcador de páginas, o telefone e endereço de uma livraria especializada, em São Paulo.
Rafael pega o telefone e disca o número indicado no marcador.
Laura atende o telefone, apoiando-o no ombro enquanto digita no computador à sua frente. Há várias pilhas de livros no local.
-- Livraria Clássicos Modernos, Laura. Boa tarde.
-- Olá, boa tarde. Eu gostaria de confirmar o endereço de entrega de uma encomenda.
-- Qual o número do pedido, senhor?
-- Poxa, eu não tenho essa informação comigo agora, mas o pedido está em nome de... - Rafael faz uma breve pausa enquanto consulta novamente a etiqueta da caixa - Carolina Martins.
-- Sinto muito, senhor, mas só posso te passar esse endereço se você tiver o número do pedido.
-- Laura, olha só... O livro que eu encomendei é um presente para a minha esposa. Ela adora a Clarice Lispector, e o aniversário dela é amanhã, então, eu tô numa situação meio complicada. Você não pode mesmo me ajudar? Tô achando que cadastrei o endereço errado.
-- Ahh, tá, vou ver o que consigo. Aguarda um pouco que eu verifico para o senhor.
-- Estou esperando. Obrigado, Laura - ele ouve o som das teclas sendo digitadas enquanto a moça faz a consulta no terminal.
-- Carolina Martins. Rua Aurora, 927, Ap 32, Salvador - Bahia, CEP 41050-100, confere? - ela informa - Foi despachado anteontem, via SEDEX.
"Bingo!" - ele pensa consigo mesmo enquanto anota o novo endereço.
-- É... É esse endereço mesmo... Bem, deve estar chegando então. Muito obrigado, Laura. Salvou minha vida.
Rafael já tirara o telefone do ouvido quando Laura percebe algo estranho na ficha de Carolina. Estado Civil: Solteira.
-- Err.. Senhor? - ele desliga o telefone sem nem sequer ouvir o protesto da moça.
Momentos depois, munido de papel e caneta, o rapaz escreve uma breve carta para a tal "Carolina Martins" explicando a situação e colocando-a junto com o pacote que chegara a seu endereço por engano. Na manhã seguinte, o embrulho é despachado novamente, mas dessa vez para o destinatário apropriado.
Destinatário: Carolina Martins
Rua Aurora, 927, Ap 32
Salvador - BA
41050-100
Normalidade não é uma palavra que me abrange. Ou, pelo menos, tento ficar fora de seu alcance. Tento não ser o típico tipo de pessoa que você encontra pela vida e esquece minutos ou horas depois. Sou uma mistura de tempos. Acho que o não me abarco pelo presente. Estou dois passos atrás, para muita coisa, e um passo a frente para outras tantas. Tenho um conservadorismo para relacionamentos que não é comum à minha geração. Gosto do novo, gosto ainda mais do útil. Não, não gosto do fútil. Não vejo graça no previsível, ele está por todas as partes. Me agradam todas as pequenas ações inusitadas e as coisas que ninguém faz ou diz. O acaso me impressiona sempre.
O mundo me parece coberto de fumaça e fuligem, disfarçando e encobrindo a tudo e a todos. Meu fingimento de normalidade é profundamente mais tedioso que a normalidade real. É meu disfarce, é minha fuga, é meu desafio lançado a quem tenta se aproximar. Juntando uma boa parcela de seletividade com "todo cuidado é pouco", surge uma pessoa de poucas conexões. Sou mais extrovertido quando virtualmente me coloco.
Quando triste, me calo. Quando sem graça, sorrio. Quando sem resposta, sorrio. Sorrio sozinho com memórias e músicas. Choro sozinho com músicas e memórias. Falo sozinho (talvez até demais: diálogos pluripersonificados), canto sozinho. Vivo sozinho. Gosto de pensar assim. Gosto de ser "Só Tito Ferradans". Respondo por aquilo que me diz respeito e tento entender de tudo um pouco e ser bom em tudo que faço. Óbvio, nem sempre consigo. Mas garanto que não é por falta de esforço.
Sinto estar no caminho certo, mas tenho medo de ter pego alguma curva errada ao longo da viagem. Viagem sem sinalização e sem limite de velocidade. Viagem com destino comum a todos, mas de caminhos infinitamente diversos. A ideia aqui não é seguir um pronto. Faço minha trilha em meio a avenidas, prédios, árvores, rios e montanhas.
Não há necessidade de preocupação para com o fim. Mais cedo ou mais tarde, ele vai chegar. Se isso já é certo, definitivamente, é suficiente para mim. Quanto mais se pensa no fim, mais se aproxima do fim. Mais se perde do 'durante'.
Alma inquieta procura: iluminação superior. (2000W de potência, ou mais).
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Tem certas perguntas que não trazem nada de bom. Tem certas coisas que é melhor não se pensar a respeito. Eu garanto: não vão levar a nenhuma conclusão agradável no momento.
"Ignorância é uma bênção." - Nem sempre, mas em certos casos.
I don't want to set the world on fire. I just want to start a flame in your heart...
Receber uma mensagem de voz, de uma pessoa totalmente desconhecida é algo raro. Receber DUAS, na mesma tarde de Domingo, pra a mesma pessoa (que não sou eu), é algo que eu nunca sequer imaginei ser possível. Ganhei esse presente ao sair do simulado e e ouvir as mensagens na minha caixa postal.
Aparentemente, um Victor está de mudança, e uma tal de Anita queria pegar coisas na casa dele. Ela foi muito educada, até carinhosa na mensagem. Em seguida, outro amigo do rapaz, um Rafael, ligou, perguntando se ia rolar mesmo a mudança, e se ele podia pegar "aquelas caixas lá", além de evitar "qualquer tipo de momentos estranhos com a Anita, e tal".
Minha compreensão é parca, mas, se tivesse que chutar, Victor e Anita já tiveram algum tipo de relacionamento, e Rafael é daqueles amigos pra toda a vida. Na mensagem, ele falava como se falasse com um irmão, disse que estava com saudades e que se encontrariam mais tarde. Ganhei meu domingo com isso.
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