Day-to-Day Anamorphic

[Anamórficos XIII] Modificando Lentes!

April 3, 2013

Tenho lembrança de, um tempo atrás, ter comentado que tava planejando abrir umas lentes para fazer modificações, inspirado por esse vídeo aqui embaixo.

O que esse camarada - chamado Amir Safari - fez foi abrir uma Helios 44, arrancar fora as lâminas da abertura e colocar no lugar um disco de acrílico, cortado a laser, com uma forma oval com proporção de 2:1, equivalente a uma abertura próxima de f/4. Dessa forma, ele evita o maior problema do filtro Cinemorph, que são as bordas pretas, além de eliminar a necessidade de mais uma peça pra carregar pra lá e pra cá.

Ok, arrancar fora as lâminas é uma parada violenta, porque a lente agora só funciona em f/4, mas, é um recurso trabalhável, porque garante um dos efeitos visuais mais notáveis das anamórficas, que é o desfoque ovalado. Além disso, ainda é bem fácil de fazer foco em objetos próximos (até 25 cm, que é um desafio enorme pra uma anamórfica), ou mesmo fazer passagens de foco sem stress.

Desde que vi esse vídeo fiquei um tanto curioso, e levando em conta o preço de uma Helios, resolvi arriscar. Paguei vinte conto em uma e mandei vir da Inglaterra. Demorou pra caramba, mas chegou. Nesse meio tempo, mandei uma mensagem despretensiosa pro Amir, perguntando como ele tinha feito, como desmontar a lente, e pedindo o arquivo utilizado pra fazer o corte a laser. Ele foi super gente boa e respondeu tudo que eu podia imaginar, além de mandar o arquivo.

O próximo passo foi procurar um lugar aqui que fizesse o corte. Não achei nada que fizesse poucas unidades, ou uma chapa pequena, só uns rolês acima de R$100, então voltei pro Amir e perguntei se ele tinha sugestões. Ele disse que dava pra cortar lá, que custava 10 euros, e rendia uns 15 disquinhos. Respondi que era interessante, mas que 15 era um pouco demais, né?

Qual não foi minha surpresa quando o bróder disse que podia mandar uns que tinham sobrado por lá, das experiências dele, de graça, boa vontade em pessoa. Quem sou eu pra recusar? Aproveitei a deixa pra saber se ele já tinha testado o processo em outras lentes e ele me indicou mais três modelos, uma grande angular, uma normal e uma tele. Só consegui encontrar a grande angular, Pentacon 29mm f/2.8. Como tava por 15 euros, aproveitei e comprei também. Essa veio da Áustria.

Antes mesmo dos disquinhos chegarem, já comecei a fazer experiências e desmontei a lente toda. Desmontei tanto que soltei a helicoidal, que é a rosca que controla o foco. Se a lente tem um coração pra funcionar, eu diria que é a helicoidal. Sofri pra conseguir colocar de volta. Dá pra encaixar de uns dez jeitos, e só um deles é o certo. Pra ver se tá certo, você precisa remontar a lente toda e testar. Se não está, desfaz tudo e reencaixa. Foi tenso. Levei uns dois dias nesse processo, mas agora, se precisar fazer qualquer coisa nessa lente, dá pra fazer de olhos fechados, em cinco minutos. O maior erro foi não fazer marcas indicando onde vai o encaixe.

Nesse processo, descobri um bom caminho até as lâminas, que não envolvia arrancá-las fora, como fez o Amir. Deixei elas lá, e a lente pode funcionar quase normalmente se assim for necessário. Quando o envelope chegou, imediatamente peguei a lente e joguei uma abertura lá dentro, fechei e fui testar. Quase chorei de emoção quando vi que tinha dado certo. O disco tava desalinhado (a forma oval não estava em pé, como deveria) e muito gordinho - algo perto de 3mm - portanto, criando uma tensão nas roscas internas.

No dia seguinte, fui numa loja de material de construção aqui na esquina e comprei um pedaço de lixa. Quase fiquei sem impressões digitais de tanto que lixei esses discos de acrílico. O sacrifício valeu a pena e ficaram com menos de 1mm. Dois são para a Helios, um com f/2.8 e outro com f/4 (esse é melhor). O terceiro era para a Pentacon, também perto de f/4, mas a lente não tinha chegado ainda.


Uma Helios 44 que parece comum,

Mas tem alma anamórfica!

Aqui um testezinho, superclose da May, feito com essa Helios. Reparem nas luzes ovais desfocadas ao fundo, e no quão próxima a câmera está da modelo, sem problemas de definição ou foco!

Olhando lá dentro, dá pra ver as ranhuras feitas pelo processo de lixar o disco. Também dá pra ver toda a sujeira do mundo nos vidros, e que são poucos elementos, num projeto bastante simples. Diferente do que o Amir me indicou - abrir a lente por trás - consegui achar um caminho fácil pela frente, permitindo que eu encaixasse o fundo na câmera para facilitar o processo de alinhamento da abertura. Se ficar torto tem que abrir tudo de novo e fechar depois do ajuste. É chatinho, e precisou de algumas tentativas.

Algumas semanas depois chegou a Pentacon 29mm e repeti o processo. De novo, fiz a burrada de soltar a helicoidal - essa lente é bem mais complexa, com muitos elementos internos precisam ser removidos no processo - mas algum esperto já tinha feito isso antes e deixou marcas de onde a lente voltava a encaixar direito. Em umas três horas consegui terminar o processo, fazendo uso de uma espátula de bolo para desrosquear o bloco óptico principal, que tava muito bem preso.

Na hora de alcançar a abertura, tava me guiando por um site e ele indicava o uso de uma chave magnetizada, então, segui o conselho. Deu merda e todas as lâminas pularam fora de seus encaixes pra grudar na chave. O jeito foi tirar todas fora, guardar numa caixinha e substituir pelo disco. Se algum dia eu tiver coragem suficiente, tento colocar de volta.


Mais uma que parece comum por fora

e vê 2:1

Essa lente, diferente da Helios, não tem uma qualidade de imagem tão boa, mas é bem útil para closes não tão fechados, e com distorção de grande angular ou muita informação no fundo do plano. É o caso das imagens abaixo, feitas também na mesa da May, onde temos um objeto em foco no primeiro plano (a uns 20cm da câmera) e luzes ovaladas fora de foco ao fundo, com todo o charme anamórfico.


Como sou um sujeito que preza muito pela matemática das coisas, já que os ovais eram de 2:1, cortei as imagens com uma janela de uma lente com 2x de stretch, ficando assim bem compridinha, mas dá pra fazer cortes mais abertos sem qualquer problema. Uma grande possibilidade dessas lentes modificadas, inclusive, é utilizar em conjunto com os focus-through de 1.33x, que produzem belos flares, mas não ovalam a abertura, e assim, obter todas as características de lentes mais caras, em condições bem mais simples de trabalhar!


Na minha pressa em fechar o post, acabei esquecendo de uma das coisas mais importantes que ia colocar aqui: o arquivo com os discos, pra quem quiser baixar e cortar! O link tá logo aqui embaixo, e é para uma chapa de 10x10cm. Esses são da Helios 44, mas abrindo outras lentes e tirando as medidas, é só redimensionar cada disco. A primeira coluna tem aberturas mais próximas de f/2.8. A segunda, f/3.2, depois f/4 e por fim, f/8. Eles têm pequenas variações de tamanho entre si, porque o disco de abertura da Helios também tem essas pequenas variações. O meu tinha 19.8mm, e o disco ficou um pouquinho folgado lá dentro

Abertura Anamórfica - Helios 44 (Illustrator e PDF)

Desejo a todos boa sorte no processo, e que me dêem um retorno, caso levem a idéia adiante! Só tomem cuidado com o tamanho do investimento! Se sua Helios saiu caro, não recomendo abrir, mas se você tá comprando uma só pra isso, divirta-se!

Day-to-Day Anamorphic

[Anamórficos XII] Isco Widescreen 2000.

April 3, 2013

Muitos fatores me levam a acreditar que essa foi a última anamórfica que vou comprar em tempos recentes. Entre esses fatores temos uma enorme subida nos preços - todas as lentes que eu comprei no começo da pesquisa estão escasseando no eBay e os preços já dobraram (ou triplicaram em alguns casos) - e tá difícil achar uma boa barganha, como foi o caso desse Isco 2000, escondido no eBay britânico. Além dessa supervalorização, tem também o fato de que já experimentei com quase tudo que dava pra brincar! Já tive double-focus bom, double-focus ruim, Iscorama barato, Iscorama com problema, focus-through barato e pequeno, focus-through grande, quase todos os stretches possíveis, enfim, a essa altura eu já sei bem o que me interessa e o preço que eles valem.

A única coisa que ainda não passou por aqui foram lentes de 8mm, bem pequenininhas, mas tratadas como pedras preciosas. Temos aí os Iscomorphots (mini-Iscoramas), os Bolex-Mollers, Delramas/Vistascopes e Baby Hypergonars. Os três primeiros têm stretch de 1.5x e são single-focus, double-focus e focus through, respectivamente. As Baby Hypergonars são só 50 no mundo, double-focus e stretch de 1.75x. Um pouco exótico demais pro meu gosto.


Isco Widescreen 2000. Stretch 1.5x

Então, vamos ao que interessa, que é esse Isco 2000. O que é esse treco? Em suma, é um modelo de foco fixo, onde você só precisa focar a lente base, stretch de 1.5x e bem levinho. Esse que eu peguei já veio com um anel 62-67mm colado na frente, para uso de close ups, e uma clamp com rosca de 55mm, faltando um parafuso. Já botei mais um anel na frente, de 67-72mm, pra ficar no tamanho padrão de filtros anamórficos e uma tampinha, pra proteger o menino. Atrás, estou procurando descobrir o tamanho exato do parafuso, pra substituir logo os três. A clamp é de excelente qualidade, bem justinha ao redor da lente, porém um pouco curta - o elemento traseiro fica parcialmente exposto. Resolvi metade do problema colocando um anel 52-55mm, e padronizando também o encaixe e adaptando uma tampinha pra fechar o vidro quando não estiver em uso.

Pelo lado negativo, o elemento traseiro apresenta duas áreas de separação, que dá pra ver nas cores arco-íris da foto abaixo. Elas não afetam a imagem resultante, mas dependendo do ângulo que você olhe, é uma parada bem estranha e chamativa.

Como só peguei a lente ontem, não deu tempo de usar em nenhum projeto, mas fiz alguns testes e tive resultados curiosos. Ele não se deu muito bem com a Jupiter 9 (85mm), nem fechando bastante a abertura, mas ficou incrível quando encaixado com a Helios 44 (58mm), mesmo com a íris toda aberta.

O conjunto fica bem bonitinho, parecendo uma coisa só, sem parafusos saindo, nem diferenças de diâmetro! Além disso, é bem incrível ele funcionar bem com a Helios, uma vez que ela é muito aberta para as outras lentes de 1.5x que passaram por aqui. Vai facilitar bastante as coisas nos próximos docs da OLD!

Não consegui ver os flares ainda, mas parecem promissores, baseado em vídeos-teste no Vimeo. De acordo com pesquisas, ele tem foco fixo em 6m-infinito, então os close ups são bem importantes para conseguir fazer planos próximos decentes, mas close ups é algo que não falta nessa casa! Pra fechar o post, uma foto do setup utilizado pra fazer essas fotos de lentes elegantes, já mostrando duas lentes que vão ser tema de um post próximo, assim como uma foto da May, super-animada porque tem um programa de rádio inteiro pra fazer hoje (do roteiro à finalização)!


Day-to-Day

Desentendimento com Montagem.

March 31, 2013

De todas as coisas que eu passei a desgostar no processo de produção de um filme, vídeo, projeto, etc, desde que entrei em AV, a montagem sempre foi a mais prejudicada. Eu gostava de fazer experiências, encaixar uma coisa na outra pra ver no que dava e geralmente, o primeiro corte de qualquer coisa era também o último. Não era sempre, e também não necessariamente rápido. Aí você aprende que tem que montar no Final Cut - que é o programa mais chato do mundo -, que tem que organizar o material seguindo as normas X e Y, que tem que converter o material - isso eu nunca vou engolir - se distanciar da experiência do set (de preferência, o montador não deve frequentar o set), sincronizar o som, fazer ajustes na imagem pro filme ficar com cara de produto final, e por aí segue a lista. Essas são as piores, pra mim, e vou explicar direito os motivos.

Começando pelo Final Cut, que é um programa imbecil. Sorry Apple, mas é. Se você importar uma sequência numérica de arquivos, ele vai ordenar: 1, 10, 11, 12, ..., 2, 20, 21, ..., 3, e assim por diante. Se um programa não é capaz de entender a ordem dos números naturais, me pergunto qual sua capacidade de entender de um filme. Os atalhos são nebulosos - não adianta deixar o mouse em cima do botãozinho da ferramenta, que nem num Adobe da vida, ele só vai mostrar o nome, mas não as hotkeys. O Final Cut 7, que é a última versão do programa - literalmente a última, porque a Apple abandonou o estilo "Pro" na sua atualização, automatizou todos os processos, e assim matou o editor de som e o camarada que faz a correção de cor, em outros programas (mais decentes) - foi lançado em 2009.

Eu te desafio a listar todas as câmeras que foram lançadas de 2009 pra cá. Ok, acho que foram muitas e a lista vai ficar muito longa. Te desafio então a listar todos os formatos/codecs que se popularizaram e aprimoraram de 2009 pra cá. Putz, ainda tem muita coisa, né? Então vamos focar em UM único codec, que mudou bastante coisa: MP4/H.264. Pois é, o FCP7 não tem suporte nativo a H.264, o que só faz aumentar minha ira, uma vez que tenha boa qualidade de imagem e preço acessível utiliza codificação H.264, como as Canons, Nikons, Panasonic, Sony, e por aí vai.

O que você faz, já que o programa não consegue lidar com formato original dos arquivos? Ah, sei lá, acho que é uma boa CONVERTER TODO O MATERIAL DO FILME. Vejamos bem. Um filme curtinho (3-5 minutos), feito sem muito exagero de planos e com material comprimido (H.264), fica com mais ou menos 7-10 gigabytes. Na hora que você converte pro formato amigável do FCP - o AppleProRes 422 - esse volume aumenta de 20 a 30 vezes. Aí o filme acabou de ficar mais caro, porque tá na hora de comprar um HD, o material não cabe mais num pendrive!

Acho que não vale a pena contra-argumentar dizendo que "Em ProRes o computador sofre menos pra interpretar as informações do vídeo". Sério, estamos falando de computadores de 2009. Se você, em 2013, ainda usa um computador de 2009, e se esse computador REALMENTE não consegue abrir um MP4 da vida, vou te dar a dica que por menos de mil reais você consegue um netbook melhor. Em 2009, 2GB de RAM DDR era MUITO. Hoje, 16GB DDR3 é razoável. Os padrões são outros, a velocidade de processamento é estupidamente maior e, por consequência, a velocidade. Isso sem entrar no mérito de que você não vai GANHAR nada em relação ao arquivo original - sei lá, mais cores, mais latitude - só tamanho.

Sincronizar o som: ninguém nunca explica essa parte direito. Vendo no set, você entende que é a partir da clquete, afinal, a câmera vê a batida, e o som grava a batida, então, na montagem você faz a imagem juntar com o som nesse ponto, e pronto! E é isso mesmo! Fazer isso pra um plano, "moleza". Pra dez planos, "ok, tolerável". Pra TODOS os planos? Um inferno! Só pra achar a claquete no vídeo, e depois achar no som, você já vai perder o tempo de uma vida inteira, pra juntar os dois, no frame certinho, vão mais duas vidas.

Em aula, ninguém fala de outros métodos. Andando pelos corredores, ouvi rumores de um plugin e resolvi testar. É o bendito do PluralEyes - antes, da Singular Software, e agora da RedGiant. O que o PluralEyes (versão 2) fazia era pegar o string de som da câmera, comparar com os strings do som direto, e achar os pares perfeitos, em meio a todo o material. Desse jeito, você pode sincronizar múltiplas câmeras pra um único som direto, não precisa nem enquadrar a claquete - na verdade, NEM PRECISA de claquete - e tudo muito mais rápido e preciso do que fazer na unha. Essa versão era um plugin pros principais programas de edição. FCP, Premiere, Vegas e AVID. Agora, uma nova versão foi lançada, que é um programa independente. Ele faz o mesmo que o plugin fazia, só que vinte vezes mais rápido e mais certo. Sinceramente, essa porcaria devia ser apresentada no PRIMEIRO dia de aula. Se não, que fosse pelo menos no primeiro dia de Montagem!

Agora, como que essa história do som se relaciona com o set? Não é muito difícil derivar a partir da não-necessidade de claquete. Se você não tem que ficar batendo claquete, e mantém uma continuidade decente, seu set já tá mais rápido. Se você consegue andar mais rápido no set, seu filme tem menos dias e é mais barato. Na real, se esse "continuísta decente" for o montador, só vejo pontos positivos. Primeiro, porque ele não vai precisar ver todos os takes de tudo, pra saber o que está acontecendo. Ok, existem anotações que indicam qual é melhor, mas, melhor em relação a quê? Então, tem que ver tudo. Se ele tava no set, ele já viu todo o material e já sabe todos os truques - onde encaixa e desencaixa, onde tem que fazer uma cobertura, que sons podem ser gravados sem imagem, e por aí vai - pra fazer a montagem andar mais rápido, manter o clima da filmagem (quando isso é bom), além de já ter uma conversa/experiência com o diretor/diretora sobre o que se espera do resultado.

Sobre colocar sonzinhos extras e fazer alterações na imagem: pessoas, estamos falando de um filme. Um produto de imaginação. Se você não consegue assistir o negócio montado e imaginar como vai ficar com a cor final e os efeitos sonoros, acho que - mesmo tendo passado no vestibular, que não é fácil - você tá na área errada, e tá na hora de exercitar esse lado esquerdo do cérebro. Pra mim, o som é com a galera do som - eu não quero nem botar o dedo, a menos que eu acredite muito cegamente que minha contribuição será fundamental, e olha que isso requer uma boa dose de arrogância, pois parto do princípio de que "minhas idéias de montador sobre o som são melhores que as idéias do som sobre o som".

Correção de cor é uma loucura do fotógrafo e do diretor. Se eu, montador, consigo fazer um chute de correção melhor que o fotógrafo, o filme já começou bem errado. E não tem essa de "pra ver se dá pra ficar parecido", quando você encaixa um plano bem diferente de outro, numa mesma cena. Hoje em dia, qualquer coisa pode virar qualquer outra coisa, com o tempo apropriado de trabalho. Então, vamos deixar o trabalho do som pro som, e o trabalho da foto pra foto, que sua vida de montador vai ficar bem menos chata e com menos cara de estágiário-que-faz-o-trabalho-dos-outros.

Organizar o material é de fato saudável, mas geralmente, o que vale é o último take, então, dá pra viver muito bem sem isso. Além do mais, dá pra fazer no set, e não deixar pro montador (que não tem nem idéia daquela bagunça) arrumar.

Agora que estamos chegando ao fim, vocês devem estar se perguntando porque essa revolta toda. Se é só algo que eu tinha aqui, amargurando em meu âmago, ou se é novo, se eu não gosto de montagem, se eu gosto, enfim. Eu gostava de montagem. Aí comecei a fazer as aulas, e passei a nem sequer tolerar montagem. Aí montei um filme que tinha muito interesse, estive no set (fui co-produtor, co-fotografo, co-assistente de direção, co-ntinuísta e logger, então dá pra ver que a equipe era pequena, né?), e fiz do jeito que me veio na cabeça, baseado no que a gente tava conversando durante as filmagens e no que o material passava. As filmagens duraram um dia só: 47 planos, com uma média de 6 takes por plano, e não custou duzentos conto. Isso foi em Outubro do ano passado.


Luz Violácea

O filme ficou bacana. É um tema divertido, engraçadinho, ágil, sem drama, anamórfico, equipe bacana, enfim, só coisas positivas. Aí fiquei um dia inteiro montando, no Premiere. Sincronizei com o PluralEyes, o material já tinha sido organizado no set mesmo - por mim - e fui encaixando uma coisa na outra. A pegada era bem Scott Pilgrim e Kick-Ass, então tentei manter o ritmo.

Depois, com dois cliques - literalmente -, joguei a montagem pra dentro do After, DIRETO do Premiere, de forma rápida e civilizada para ajustes importantes como esticar a imagem e acelerar alguns planos. Renderizei e mandei pro povo. Já tive retorno e no dia seguinte, fiz a correção de cor, efeitos especiais e ajustes finais. Como tava na pegada one-man-band, entupi o filme de efeitos sonoros. Deixei a arrogância rolar. Depois, se a May quiser ela aproveita, se não ela pode jogar tudo fora, que meu apego a essas loucuras é bem pequeno, elas são mais sugestões de clima, uma vez que a May não estava no set.

Day-to-Day

New York - Day Eight.

March 26, 2013

Chegamos por fim ao último dia da jornada. Não consegui postar ontem mesmo porque era tarde, e hoje fiquei o dia com a May e resolvendo coisinhas bagunçadas em casa. Enfim, vamos aos eventos.

Acordei cedo. Bem mais cedo do que esperava, às 5h40am. Fiquei tentando voltar a dormir mas não tava rolando, então fui enrolar no computador. Fechei a mala com tudo que seria despachado, botei o computador na mochila, conferi se não tava esquecendo nada, tomei um café da manhã rápido e, por segurança, coloquei uma maçã e uma garrafinha de água na mochila também. Às 8 em ponto eu tava saindo na rua, em direção ao metrô. Esses cinco minutos foram os únicos de céu aberto que tive. Daí pra frente, foi só com teto na cabeça. Trem, estação subterrânea, mais trem, transferência subterrânea para o Airtrain, terminal com teto de vidro, salão de check-in, portões de embarque, avião. Pelo menos foi tudo quentinho!

Minha mala tava consideravelmente mais pesada do que na ida. Antes, tinha 15kg. Chutei que deveria estar com uns 25, e torci pro limite de peso ser 32kg, e não 23 (sempre troco a ordem dos números). Na hora de pesar, para despachar, acertei na mosca. O limite era 32, e a mala pesava exatamente 25 quilos. Acreditem, foi bem desafiador carregar ela pelos trens e trechos à pé. Ah, que alívio foi despachar aquilo sem ter que pagar um centavo a mais!

Os americanos são meio surtados com bagagem de mão. Tem três pessoas em pontos diferentes pra conferir sua passagem e seu passaporte, depois, no detector de metais, tem que tirar os sapatos e qualquer coisa metálica (até cincos com fivela de alumínio, que passam sem problemas no Brasil), tirar os líquidos da mochila, tirar notebooks e câmeras, fazer uma pose na máquina de raio-x e pegar tudo correndo na esteira pra se recompor lá atrás.

Pelo menos o aeroporto tava vazio. Comentário rápido: o AirTrain, que é um metrô só do JFK, que atende todos os terminais, tem MAIS estações que a Linha Amarela de São Paulo. Fica aí a informação pra pensarmos a respeito. Depois do stress do detector de metais, devorei minha maçãzinha, bebi aguinha e fiquei enrolando por uma meia hora com open wi-fi. O embarque começou e, assim como na vinda, o vôo tava bem vazio. Demoramos quase uma hora pra decolar, porque começou a nevar um pouco e, por motivos de segurança, a equipe de manutenção do aeroporto passou um anti-congelante nas asas do avião.

Logo no começo do vôo, acabei com minhas parcas páginas de quadrinhos da Forbidden Planet. O nome da série é Wasteland, tem 7 capítulos, e ainda não acabou. Li os dois primeiros e tô aqui me coçando pra arrumar o terceiro, porque é MUITO bem feito. Os desenhos são sensacionais e a trama em si, personagens e diálogos, mantém o nível lá em cima. Muito me surpreende ninguém ter adaptado isso pra filme/série ainda. Nessas trezentas páginas, a tensão só aumenta em torno dos personagens (são vários) que lutam para sobreviver num mundo pós-apocalíptico (sinto que nunca vou cansar desse tema).

Depois que acabaram os quadrinhos, as horas restantes de vôo se arrastaram. A sensação foi de muito mais demora que a ida. Escrevi, vi filme, dormi em todas as posições possíveis e imagináveis até que, por fim, chegamos. O desembarque em São Paulo foi infinitamente mais rápido. Check-in de passaporte, as malas já estavam na esteira, peguei a minha e fui enfrentar a alfândega. Como tava com relativamente pouca coisa, e tudo usado - as coisas novas não batiam nos 500 dólares permitidos, fui na cara e na coragem, primeiro do vôo a sair.

No corredor de "Nada a Declarar" tem uma bifurcação, e um camarada bem no meio. Ele indica se você vai pra "Saída" ou "Verificação de Bagagem". E lá fui eu, apontado para a Verificação de Bagagem. Ê beleza! Ok, as coisas eram usadas, mas se não fossem com a minha cara, dava pra perder uma graninha boa ali. Na Verificação de Bagagem tinham umas seis pessoas operando um par de máquinas de raio-x. Como fui o primeiro, eles ainda estavam muito concentrados no papo, e acho que só queriam terminar o turno - já eram 22h. Botei a mala na esteira, a mochila também. As duas passaram pela máquina e saíram do outro lado. Ninguém nem olhou na minha cara. Acho que ninguém nem olhou no monitor. Peguei as coisas, disse um "boa noite" tímido - responderam! - e fui embora sem maiores incômodos ou taxas. E o coração quase saindo pela boca.

Peguei um táxi e, ainda não sei como, o bróder fez o caminho de Guarulhos até aqui em casa em 25 minutos, sem correr feito um alucinado - à lá taxistas do Rio. Esse turbo me fez recuperar o tempo perdido antes da decolagem, e cheguei em casa exatamente na hora que tinha previsto: 23h30. Lila tinha acabado de chegar também e ficamos conversando um pouco na sala. Vim pro quarto, desarrumei a mala - sou dessas pessoas que desfaz a mala assim que chega - e, devido à absoluta falta de sono, dei boa noite pra May e fiquei na sala arrumando os novos equipamentos (logo mais faço um post só pra explicar as novidades) e jogando fora um monte de lixo acumulado ao longo do tempo.

Lá pelas 3h o sono veio e apaguei. E assim acabou a saga novaiorquina.

Se algum dia esses posts virarem um livro, seria absurdo não agradecer a uma série de pessoas, então, vamos a elas. Em primeiro lugar, claro, meus pais, que me deram mil dicas do que providenciar - desde seguro-viagem à me entupir de vitamina C pra não gripar -, minha mãe, por buscar e despachar meu passaporte de Salvador pra São Paulo, que só ficou pronto uma semana antes da viagem, Alessandro, que me deu muitas dicas e arrumou uma casa pra eu ficar, e May que me deu coragem pra providenciar tudo - da compra das passagens ao retorno pro Brasil - em menos de um mês. Agradeço também a Lico e Lilian pelas dicas de programas pela cidade, a Ju, por mais outras tantas dicas e a Lila, pelo guia e mapa que mais usei na vida.

Por fim, agradeço à Kimi e seus amigos brasileiros (Ricardo, Nicolas e Otávio), pelo dia divertidíssimo em Poughkeepsie, e agora só à Kimi, por receber trocentas mil caixas que enviei pro endereço dela e ainda me fazer criar vontade de viajar! E, por último, ao Richard, por me receber em sua casa, mesmo sem me conhecer, e me ajudar em tudo que precisei! Tristan, meu caro, espero não ter te acordado todos os dias, quando tava de saída!

FIM

Day-to-Day

New York - Day Seven.

March 25, 2013

Antes tarde do que nunca. Hoje o dia foi leve. Acordei cedinho e pra não ficar ocioso em casa enquanto os donos dormiam, fui passear na High Line de novo, só que dessa vez vindo da 14th Street para cima, pra ver se encontrava a entrada perdida que me confundiu ontem. Descobri que tá interditado mesmo, e saí pelo mesmo lugar, na 30th Street. Dei uma enrolada porque ainda não tinha dado o horário de abertura da B&H, e voltei logo em seguida. Percebi que é difícil (impossível) andar duas quadras sem passar por um Starbucks!

Uma outra coisa curiosa que percebi nos primeiros dias e esqueci de comentar por aqui é: as portas em Nova York só abrem para fora. São raros os casos que abrem pra dentro. A conclusão lógica que encontrei foi que, como todos os ambientes são aquecidos, é preferível que um pouco de calor saia para a rua, do que o ar gelado entre no lugar! Ou então, pensando em casos de emergência, é muito mais eficiente sair de um lugar que abre para fora do que um que abre para dentro. Na verdade, acho que as duas coisas podem estar agindo em conjunto!

Hoje (quase) fez calor por aqui. Acredito que ultrapassou a marca imbatível dos cinco graus positivos. Fiquei muito curioso para saber qual a temperatura interna dos ambientes, porém! Todos são agradáveis, não quentes o suficiente pra suar, mas o bastante pra tirar todo o incômodo da rua! Falando em ambientes aquecidos, hoje criei vergonha na cara e fui - afinal - no MoMA, o Museum of Modern Arts.

Se eu tinha desistido ontem porque tinha fila, hoje então era pra nem ter passado da porta, porque a fila tava do lado de fora. Foda-se, se não fosse hoje, não ia mais, então era questão de honra! Fiquei duas horas lá dentro. Meu pé tava doendo infernalmente. O museu é um lugar interessante, as galerias são muito bem divididas, mas até chegar no quinto andar - amantes da arte, me perdoem - não tava vendo muito propósito em quase nada. Passei por umas fotos legais, umas coisas de Andy Warhol, mas nada que me justificasse os 25 dólares da entrada.

No quinto, estava em exposição "O Grito", de Edvard Munch, assim como outras obras do rapaz. Essa aí embaixo é a que mais me impressionou, que é a irmã dele, ainda criança, que morreu, vítima da tuberculose. Fiquei muito tempo encarando esse quadro. Muito. Depois, terminei de passear pelo andar, vendo coisas de Cézanne, Salvador Dalí, Frida Kahlo, Matisse, Picasso, van Gogh, Monet e sua turminha. Conhecia algumas das obras expostas, não conhecia a maioria. Sou muito fraco de história da arte. Na verdade verdadeira, só esse quadro de Munch que me fez valer a ida ("O Grito" também, ok).


Det syke barn I (The Sick Child I), Edvard Munch

No caminho pra casa, passei em uma loja pra comprar uma lembrancinha pra May e, quando tava saindo, percebi que não me cobraram a taxa de venda. O estado de Nova York tem uma lei própria, que impõe 14.87% de impostos sobre praticamente qualquer venda. Não digo que são todas porque teve essa, e umas outras coisinhas, online, onde não fui taxado. Queria muito descobrir o motivo das exceções! Como percebi já fora da loja, resolvi não voltar e perguntar, mas se tivesse notado no caixa, teria perguntado na lata!

Comi um croissant recheado, deixei a mochila em casa - pela primeira vez em sete dias - e fiz um test-run até o aeroporto, pra achar o melhor caminho e o tempo de viagem, já me programando pro retorno, amanhã cedo. O vôo é às 11h45am, e preciso sair daqui às 8h00am porque a jornada leva mais ou menos 1h10, e vai ser um pouco mais atribulada porque é hora do rush no metrô, e eu tenho uma mala grande. Depois disso, voltei pra casa, tomei um banho e fiquei aqui, me entupindo de água e comida, pra ver se minha boca melhora alguma coisa - tá toda partida, coitada.

Amanhã temos as aventuras do retorno, e um vôo gigante. No mínimo, alguns agradecimentos a fazer e um comentário sobre aqueles quadrinhos! Inté!

Day-to-Day

Production Value.

March 24, 2013

"It will cost your life..."

Vi ontem na Forbidden Planet e esqueci de postar. Juro que só não comprei porque tô quase falido! Se alguém tiver interessado, tem no Amazon, que entrega no Brasil!

Day-to-Day

New York - Bonus Six.

March 23, 2013

Só hoje, no sexto dia, resolvi que era uma coisa decente ir ao cinema em NY. Não sei, pensei que ia ser igual a qualquer lugar do mundo, só que sem legendas. Não podia estar mais enganado. Agora tô dando graças aos céus de só ter ido hoje, porque se fosse no primeiro dia, todos os outros eu ia passar no cinema.

Comecei meio desanimado, porque não tinha nada muito incrível em cartaz. Por fim, me decidi por um, e joguei no Google Maps: "movie theater". Trocentos pontinhos surgiram. Acho que tem mais salas de cinema nessa ilha minúscula do que em toda a cidade de São Paulo (esse é um "acho" com grande porcentagem de certeza). Fiquei entre três opções, uma 34th, um na 42nd e um na 68th, mais perto de casa. Por preguiça de muvuca, resolvi ir nesse mais próximo. O filme era The Call, e começava às 7h30pm. Saí de casa num horário bem adequado, com tranquilidade - até parece - às 7h10pm. Corri esbaforido até o metrô.

Tem uma coisa que eu esqueci de contar sobre o metrô. TODOS os dias, quando eu chego na estação e começo a descer as escadas, tem um trem saindo e eu nunca consigo pegar. Já com isso em mente, pensei que se fosse correndo, ia chegar a tempo de embarcar. Não deu outra. Cheguei na hora que as portas abriram, mas só faltavam quinze minutos pro filme começar, a 40 quadras de distância. Saí do metrô que nem uma bala, tentando não atropelar as pessoas na rua e correndo para atravessar - não tinha feito isso ainda. Comprei meu ingresso às 7h32pm. Ingresso caro da desgraça, me custou 14 doletas.

O espaço do cinema (um da rede AMC Loews) era totalmente decorado com um tema meio inca, meio celta, até pros nomes das salas. As paredes tinham entalhes de pedra, e a iluminação era delicada. Clima bacana. Entrei na sala, tava bem cheia. Me espremi entre dois casais, numa fila bem pra frente. Não perdi nem os trailers. Aí começou o espetáculo. O primeiro trailer foi de Gatsby, que vai ser um filme foda. O segundo, de Iron Man 3, depois, Kick Ass 2, seguido de Evil Dead. Tinha alguma coisa nesses trailers que tava sendo mais emocionante do que ver trailers nos cinemas do Brasil, e não era só a ausência das legendas. A legenda É mesmo uma muleta, então, sem ela, você se concentra muito mais no som, e nas cenas. Não consegui disfarçar o sorriso assistindo aos trailers.

Até a propagandinha da sala, sabe, de "desligue o seu celular", etc etc, era muito bem feita, sem essas coisas bizarras de pipoquinha andando, ou pichações que saem da parede - pessoas, me perdoem, mas eu acho essas paradas muito toscas. É muito educativo, é falso, ninguém liga praquilo. Aqui era com personagens de uma animação que tá em cartaz, e uma situação clichê, mas bem executada, divertida. Ele não faz você lembrar que é ruim usar o celular na sala só porque é ruim. Há um clima de comédia, que, ao passar pela cena, você lembra do celular involuntariamente. Como diria Lila, it's made to stick. And it sticks.

A sala era muito boa, com caixas de som de qualidade superior a todas as salas de São Paulo - convenhamos, é uma desgraça, o som vaza de uma sala pra outra! Só o IMAX escapa. A projeção digital, sem arranhões de película, também era mais imersiva, e a proximidade da tela (a sala era pequena, não em formato de arena, como costumamos ter no Brasil, e sim algo na linha HSBC Belas Artes) influenciavam no clima.

Começa o filme. Vou fazendo um resumo muito breve, cheio de spoilers, porque preciso ressaltar pontos importantes. É tipo um "Por Um Fio" às avessas. The Call conta a história de Jordan, uma operadora da central telefônica de emergência (911) de Los Angeles. Ela recebe uma ligação de uma menina, faz merda, a menina é sequestrada e morta. Ela não consegue lidar com a pressão e se demite, passando a treinadora de futuros operadores. Num desses treinamentos, uma colega iniciante recebe uma ligação crítica, de uma garota sendo sequestrada, e Jordan (Halle Berry) assume o lugar dela, guiando a garota.

Inicialmente, Chasey (a garota) é colocada num porta malas, e o celular não tem chip, então não é rastreável. Claro, o sequestrador é o mesmo que matou aquela outra garota. Jordan então vai acalmando a menina e dizendo o que ela deve fazer. Ela quebra o farol traseiro do carro, e começa a jogar tinta na pista. Em paralelo, Jordan vai passando informações para a polícia, enquanto tenta identificar o carro em meio à cidade, e a identidade do sequestrador.

A garota tenta fugir umas três vezes. Na segunda, o bróder dá um murro na cara dela. Nessa hora, O CINEMA INTEIRO fez um "oooouch!". Não foi uma pessoa, nem duas. Foram TODAS. A tensão vai crescendo, o cara desliga o telefone e Jordan vai procurar a menina no último lugar que tem rastros. A polícia já não tinha encontrado nada. As pessoas no cinema iam se descontrolando. Ouvi muitos risos nervosos, e comentários do tipo "don't go there", "oh my god", "He's gonna get her!". Os sustos não decepcionam, e não falham. No fim, as duas escapam - eles estavam num alçapão subterrâneo - e o bróder cai lá dentro, desmaiado. Jordan pega o celular para ligar para 911, quando a menina diz pra ela esperar.

Aqui foi a única parte do filme que me surpreendeu. Em condições normais, ela diria pra menina que a coisa certa é ligar, que ele vai ser preso e pagar pelo que fez, etc etc. Mas não. O bróder acorda, amarrado numa cadeira, nesse subsolo. As duas estão olhando pra ele, ele faz umas gracinhas com Jordan e diz que elas não podem deixar ele ali, que precisam chamar a polícia. E elas não chamam, e vão embora, deixando o bróder pra morrer lá dentro.

De todo o processo, a experiência mais incrível foi sentir as reações das pessoas. Numa hora que Jordan nocauteia o vilão, as pessoas aplaudiram! Sinto falta disso no nosso cinema, de envolver as pessoas. Comédia faz sucesso, ok, mas comédia é ir pro bar e ficar bebendo e contando piada. Resolvi fazer cinema pra divertir as pessoas com coisas que não são presentes no seu dia-a-dia. A única vez que vi reação parecida com essa, foi no mega-hit, sucesso imbatível, Tropa de Elite 2, quando Capitão Nascimento desce a porrada no político. É catártico, o cinema também pode ser um lugar de catarse.

Se aqui, com um filme qualquer, as pessoas estão se envolvendo, por que a gente não consegue fazer isso nem com as mega produções? Se eu tivesse que apostar, não diria que o problema está no público, e sim na mentalidade dos realizadores. Não vou entrar nessa discussão, mas vou falar do que eu quero fazer.

O principal motivo de ter saído de Salvador pra estudar é porque não tinha mercado pro que eu queria. Em São Paulo, tem um mercado de cinema e AV, mas agora que eu tô me dando conta, não é o mercado que eu quero também. A solução é migrar. Não é tão fácil quanto se escrever, mas escrever já é o começo.

Um bocado de gente já me perguntou: "e você pretende voltar, quando se formar, pra fortalecer o mercado lá?". Para esses, respondo: Meus queridos, me perdoem, mas eu não sou o messias. Olha pra minha cara, e vê se eu tenho jeito pra fortalecer mercado. Eu não quero nem pensar em logística. Eu só quero fazer filmes, me divertir no processo, e - principalmente - que o resultado divirta as pessoas tanto ou mais quanto me divertiu! Mais especificamente, eu quero fazer filmes de ação, aventura, ficção, que envolvam efeitos visuais, mas o mercado brasileiro não tá preparado para uma linguagem de ação nacional, e não sou eu a pessoa que vai criar isso - deixo para colegas mais teóricos, que gostam de discutir as coisas.

Nesses últimos meses eu já tava ficando com a sensação de que São Paulo não era meu destino final, e agora, depois de assistir esse filme aleatório, que provavelmente tem muito menos significado planejado do que teve pra mim, tenho certeza que São Paulo não é o último ponto da estrada. Ainda vou sair, não sei exatamente quando, nem como nem pra onde, mas vai rolar e não há de estar tão longe! E sei que não vou sozinho.