Day-to-Day

Matata.

January 1, 2013

O dia de hoje começou com os quatro homens da casa - um geólogo, um arquiteto, um fotógrafo e um publicitário - se revezando com uma enxada, pá e picareta para cavar um buraco no meio do mato. Vamos pular nesse buraco e sair nas férias de 2005-2006, que foi quando a gente saiu do apartamento e se mudou para essa casa, que levou um ano pra ser construída. Éramos quatro humanos (Fátima, Luiz, Tito e Lila), e dois gatos (Kiko e Madalena), todos muito apressados pela mudança, viemos antes da mudança, sem os móveis, e já começamos dormindo na sala, todos juntos, num amontoado de colchões e travesseiros, gente e gatos.

As portas e janelas viviam abertas e o vento entrava da mesma forma que os gatos saíam. Não tínhamos vizinhos, fomos da primeira leva de "colonização" do condomínio, que era um imenso parque de diversões felino. No quintal, um quarto do terreno fora preservado sem interferência nossa. Mato e árvores, uma grande ribanceira de floresta. O passatempo dessas férias era aprimorar a casa por conta própria. Meu pai adora plantas e cavucações, mas sempre trabalhava a semana toda, saindo cedo e chegando no fim da tarde. Nesse meio tempo, ele deixava missões pra gente. Em casa, estávamos sempre eu e Fábio - grande amigo e colega de colégio -, cumprindo as missões. Muitas delas envolviam escavar buracos para plantas grandes - palmeiras, ipês, graviolas, pau brasil e por aí vai - num terreno de barro batido e comprimido pelos caminhões da obra. Era pesado, mas a gente se divertia, revezando entre escavador e enxada, para amolecer a terra e tirar pra fora do buraco.

No fim do dia, meu pai chegava e avaliava os buracos, indicando o que a gente tinha que consertar (ou não!) no dia seguinte. Acho que foram as férias que mais fiz exercício ao mesmo tempo que ficava em casa. De certa feita, resolvemos colocar grama na parte limpa do quintal - depois do fim da casa e antes da parte de floresta - e pra isso, precisávamos nivelar o terreno. A descida pra parte de mato era muito brusca. E aí foi um fim de semana inteiro, de trabalho em família, carregando as pedras que sobraram da construção pra fazer uma barreira onde a terra não escorregasse, tirando barro daqui e colocando ali, arrancando raiz, colocando toquinhos de madeira pra marcar canteiros, tudo isso com dois gatos correndo e pulando por cima de tudo.

Na semana seguinte, fizemos uma trilha, limpando cipós, folhas secas e nivelando degraus com blocos de pedra, descendo até o fim da ribanceira de floresta, para passeios no meio do mato. E era a gente colocando uma pedra e os gatos assistindo da pedra recém assentada, olhando tudo aquilo de mato que eles nunca tinham visto antes. Kiko já era mais grandinho e castrado. Dona Madalena ainda não. E em 2006 mesmo ela deu a primeira ninhada. Quatro filhotes, onde só um nasceu vivo, e os mortos foram enterrados no quintal. Era uma criatura minúscula, de pêlo preto e branco e nariz cor de rosa, que corria e pulava alucinadamente em tudo e em todos, pirraçando a mãe até não poder mais - mordia, assustava, arranhava, miava - e explorando a casa por dentro. Meu pai tinha acabado de voltar do Quênia, cheio de palavras do dialeto local e a favorita era Hakuna Matata, que literalmente significa "sem problemas". E assim, o gatinho ganhou o nome de Hakuna.

Numa dessas explorações, Hakuna - do tamanho de um palmo - deu uns passos na direção errada e caiu pelo vão da escada. Do ponto mais alto até o ponto mais baixo, direto. Acho que foi um dos maiores sustos e preocupações que já passei até hoje. Todo mundo saiu correndo pra acudir o mini-gato, que, no fim das contas não teve nada grave, mas machucou o narizinho, que sangrou um pouco. Não tenho certeza, mas tenho lembrança de ir com minha mãe e Lila pro veterinário, com o gatinho, pra ter certeza de que estava tudo bem com ele. No dia seguinte a escada já estava protegida com redes de segurança.

E Hakuna cresceu, e virou o gato mais bonito da casa - casa (e família) essa que também foi mudando conforme ele crescia. Depois de castrado, começou a ficar mais e mais gordinho, chegando aos quatorze quilos em 2012. Em 2008 eu fui pra São Paulo, em 2009 meu pai foi pra Manaus, em 2010, Lila também foi pra São Paulo. Em Salvador ficou minha mãe, e os gatos - que a essa altura já eram seis. E os acidentes eram muito frequentes, os gatos saíam pra rua e voltavam machucados, ou demoravam dias pra voltar, e a gente foi ficando preocupado. O condomínio também foi ficando cada vez mais e mais ocupado, até que minha mãe decidiu que era mais saudável colocar redes em todas as janelas e não deixar os gatos saírem. Era muito sofrimento quando um chegava machucado. E então, os gatos foram virando filhos de Fátima. Vocês não fazem idéia do que minha mãe faz por esses bichinhos. Na verdade, acho que todo mundo da casa faz, mas ela é a capitã do time. E Hakuna era como se fosse o irmão mais novo de Lila e meu. Quando Lola e Nino nasceram eu já estava em São Paulo, então não era a mesma coisa.

Hakuna vivia deitado pelo chão frio da cozinha, comendo tudo que caísse do balcão e se esfregando em todos que por ali passassem, pedindo carinho. Rolava pra lá e pra cá, com a barriga pra cima, mas depois mordia e arranhava quem se arriscasse a fazer carinho muito distaidamente. Deitava do lado do pote de água, e só bebia depois que alguém parasse do lado, pra derramar um copo de água geladíssima. Água natural é pros fracos. No calor de Salvador, só assim pra valer a pena.

No Domingo, Hakuna teve um treco e não conseguia mais mexer as patinhas de trás. Estava minha mãe no quarto, escrevendo, eu, meu tio e sua namorada na sala, vendo um filme. Lila viu assim que o gato começou a se arrastar, e todos os outros gatos foram para cima dele, não sabemos se pra cheirar ou atacar, mas Lila deu um grito de "mããããããe!", daqueles que qualquer pessoa que ouve sai correndo pra ajudar, e num segundo estávamos todos - os humanos - cuidando de Hakuna, que se escondeu embaixo de uma cama, lambendo as patinhas que não se mexiam. Os outros gatos todos querendo saber o que aconteceu, tentando chegar perto e a gente com medo de dar briga, tirando eles da porta. Começou a operação resgate, pra colocar o gato gigante na caixa e levar para o veterinário. Cada um teve funções diferentes, e fiquei tirando os gatos do corredor, manobrando o carro pra ser fácil de entrar com a caixa e partir pra cidade, e fazendo qualquer outra coisa que precisassem. Eu e o Geja (meu tio) desmontamos a cama ao redor de Hakuna, pra podermos colocar a caixa de transporte mais perto dele.

Lila, minha mãe e Heneile (namorada de meu tio) ficaram fazendo de tudo pra ele entrar na caixa, e ele lá, no colchão, sentadinho, quase humano, olhando pra todo mundo com carinha de curioso - a mesma carinha de filhote que ele sempre teve - e lambendo as patinhas que não mexiam. Depois de muitas horas, conseguiram botar ele pra dentro, à base de atum, ração especial e erva de gato, tudo junto, e um empurrãozinho.

O carro foi lotado, e fiquei em casa. Lá pelas 22h, o povo estava de volta. Tinham deixado ele na clínica, mas já um tanto melhor, e tranqüilo. Ficamos menos preocupados. No dia seguinte, apareceu uma mancha no raio-x do gatinho e a clínica disse que era melhor deixar ele por lá mais um tempo, para fazer uma tomografia e ver melhor o que era aquilo no pulmão dele, e descobrir o problema das patinhas. Ontem à noite, depois de sedado, o coração de Hakuna parou, e não teve santo que fizesse voltar. Minha mãe saiu de casa e foi lá, buscar o bichinho. Lila foi a primeira a saber o que tinha acontecido, depois meu pai, depois o Geja

Só hoje de manhã é que soube que Hakuna tinha morrido. Minha mãe tava me buscando na casa de amigos de longa data, que não via há um bom tempo. Chegamos em casa, e estamos eu, meu pai, o Geja e Tio Fê, ao redor daquele buraco que a gente pulou dentro, lá no começo, e que a essa altura já estava bem fundo, o suficiente pra Hakuninha descansar sem perturbações. Foi-se tranqüilo, e já temos saudade. Talvez por já não ter visto ele rolando pelo chão da cozinha hoje, talvez por saber que não vamos mais encontrar com ele nesse mundo. Os outros gatos estão quietos, e eu acho que é porque estão notando a falta.

Não sei se tá o texto que eu imaginei escrever, só fui colocando as palavras que vieram - sou muito ruim com as palavras faladas - mas queria dedicar alguma coisa a esse irmãozinho que a gente tanto amou.

Hakuna Matata, é lindo dizer.
Hakuna matata, sim vai entender.
Os seus problemas você deve esquecer. Isso é viver

Day-to-Day

Troca de Olhares.

December 30, 2012

Aqui em casa tem seis gatos, além deles, nesse fim de ano estão por aqui meu pai, irmã, tio, namorada do tio, eu e meu avô. Tem dias que enche mais, mas o normal tem sido isso. O protagonista da história é Vovô Getro, figura ímpar que ainda há de ganhar uma história decente por aqui mas, por ora, digamos só que ele tem 87 anos, é pai de minha mãe, poeta, super animado, que fala bem rápido e prefere dormir na rede do que num colchão.

Ele se dá muito bem com todos os gatos, mas especialmente com Nino, que de uns tempos pra cá deixou de ser tão assustado e virou a criatura mais carente do mundo, com direito a cutucar suas costas com as garrinhas durante as refeições, pra pedir carinho - comportamento que lhe rendeu o apelido de "fura-fura". Estávamos à mesa do café da manhã, ontem, quando se sucede a seguinte conversa, entre meu vô e minha mãe:

- Mas rapaz, toda vez que eu acordo de noite, esse gato tá na minha porta e fica me seguindo enquanto eu ando pela casa!

- E é, meu pai?

- É! Mas fico com uma pena danada quando vou voltar pra dormir, porque ele fica querendo entrar no quarto, e não pode, então eu venho aqui pra sala - faz um gesto de driblar - dou uma tapeada nele, e enquanto ele me procura, eu entro e fecho a porta!

- Mas meu pai, se você não se incomodar com o gato, pode deixar ele entrar no seu quarto. Ele não vai pra rede, que ele tem medo, então deve ficar no colchão, olhando pra sua cara até você dormir.

- Ah é? Então vai ser ele me olhando e eu olhando pra ele. Vamo ver quem güenta mais! Há!

Day-to-Day

Home. Start.

December 27, 2012

Duas esféricas, duas anamórficas 2x e duas cinemascope também anamórficas. Metade com bichinhos, metade só contemplativa, sendo as duas últimas muito flare-fetichistas. Apesar da casa cheia nos últimos dias, me faltam modelos pra essas improvisações... Todas as fotos foram feitas aqui nas redondezas, e pretendo continuar as experimentações ao longo dos próximos dias. Acho que eu devia começar a postar as fotos aqui antes de mandar pro facebook, né?




Passei os últimos dias fazendo qualquer coisa, dormindo quando dava sono e comendo quando dava fome. Isso que é vida... Agora só me falta a coragem pra continuar as pendências paulistanas e escrever mais por aqui.

Day-to-Day

HFR, O Erro.

December 27, 2012

Fui ver O Hobbit no IMAX pouco antes de vir pra Salvador, com a May, e achei o filme sensacional. Desisti de todas as minhas críticas sobre o livro curto ter sido dividido em três filmes e gostei muito do clima, do 3D, do som e da forma que a história foi contada. Minha maior ansiedade em relação a ele, porém, não foi resolvida: e os 48fps que Peter Jackson tanto alardeou, que seria uma revolução no cinema? Só quando a sessão começou, que não senti diferença, é que percebi que minha versão era de 24fps.

Na vibe Tolkien, reassisti a trilogia do Senhor dos Anéis, versões extendidas, e me diverti a valer. Foram mais horas de filme do que eu tinha de aulas por semana nesse último semestre. Pra completar a festa, anteontem fui ver o tal do Hobbit HFR (high-frame-rate).

Não vou falar do 3D, que é um dos melhores que já vi, mas esse HFR não me desce. Também não vou me alongar explicando tecnicalidades e vou me restringir a dizer que o padrão cinematográfico é de 24 quadros por segundo. Na TV são 30. Na cabeça de Peter Jackson, O Hobbit em 48fps só traz vantagens. Há mais foco, menos borrão de movimento, mais sensação de realidade e imersão no filme. Dessas quatro, três são verdadeiras, mas a última é redondamente oposta.

Durante os primeiros quarenta minutos, me senti vendo um making of onde os equipamentos estavam escondidos, e TUDO ACELERADO. As ações todas parecem acontecer estupidamente mais rápidas que na realidade, só que isso é uma mera ilusão, porque o som não sai de sincronia. Realmente, tem foco pra cacete, e detalhe até o infinito, mas isso prejudica o filme. É possível desconfiar dos objetos de cena, eles parecem falsos, e não pareciam quando a qualidade da imagem não era tão grande.

Enfim, depois desses 40 minutos, consegui convencer minha mente que aquilo não era um making of. O próximo cenário que ela escolheu pra processar aquilo foi na frente de uma loja de eletrodomésticos, com uma tela particularmente enorme. Não sei se vocês já pararam pra observar como, de relance, as imagens dessas TVs de loja parecem incrivelmente mais detalhadas e bonitas que a que você tem na memória sobre o filme, depois de sair do cinema. De fato, elas são diferentes. Esse post do Stu Maschwitz explica isso em detalhe, e também como DESFAZER esse erro crasso dos fabricantes de TVs. Basicamente, eles aumentam o contraste, pintam tudo de azul, aumentam a clareza (sharpness) e geram novos frames artificialmente, para dar mais "naturalidade" aos movimentos".

Não sei na cabeça de quem isso dá mais naturalidade. Pra mim só fica mais artificial, e com cara de vídeo. Cara de algo que eu vejo na rua, ou numa fita VHS. Mas eu não vejo hobbits, magos, anões e orcs nas ruas. Então aquilo ali só pode ser falso, e é aí que tudo vai pro brejo, porque quando uma coisa é artificial, mas tenta se passar por real, ela fica tosca. Numa analogia estranha, quando o sujeito é feio, mas age como se fosse bonito, não dá pra não achar engraçado ou ter pena. E nessa hora que a coisa fica tosca, você, espectador, é jogado pra fora do filme mais rápido que uma flecha de Legolas (em 24fps, por favor). Incontáveis vezes eu me perdi num diálogo por estar observando os pelinhos da barba de um orc no contraluz, ou os entalhes confusos do cajado de Gandalf, ou até a reflexão estranha da luz que bate nas pedras da montanha onde a Companhia se protege, na cena da tempestade e da batalha dos gigantes de pedra.

Day-to-Day Tudo AV

François.

December 18, 2012

E eu aqui, penando, cada dia mais perto de voltar pra Salvador e com mil coisas pra terminar. Uma delas, que deu muito certo, foi o nosso doc com o André François, com a OLD. Gostei bastante do que ele fala, e foi difícil deixar coisas de fora.

Day-to-Day

Ultrapassagem II.

November 30, 2012

As últimas semanas foram tão caóticas que acabei esquecendo de publicar minha própria coluna por aqui! OLD 16, meu segundo texto, ainda sobre lentes, mas não anamórficas dessa vez, e sim sobre adaptações. Tá lá na página 45. Mas a revista toda é boa!

Day-to-Day

Diversão e Trabalho.

November 30, 2012

Mais de uma vez ao longo desses anos de AV, pessoas me disseram para fazer um blog separado para coisas de trabalho e pesquisa, e manter esse só para histórias pessoais. Eu admito que tentei, logo que sai do wordpress grátis e vim pra esse domínio próprio. O site até existe, e é bonitinho - Portfolio - mas não sou capaz de atualizar dois endereços diferentes, com estilos diferentes. Acho que é uma incapacidade minha mesmo.

Além disso, tem uma questão ideológica. Meu trabalho é a minha maior diversão, e minha vida pessoal, na maioria do tempo, tá de alguma forma relacionada ao que eu vou/quero fazer. Aí fica tudo junto. Problemático pra quem só quer saber dos anamórficos, problemático também pra quem não quer nem saber de tecnicismos.

Bom, o Tito que escreve sobre lentes e números e coisas bizarras como keyframes, comps e etc, é o mesmo que escreve sobre sua revolta com o curso, ou sobre como reagiu quando arrombaram seu carro. Então, até que uma dessas duas coisas seja REALMENTE necessária separada, elas seguem juntas, da mesma forma que não vou me dividir em dois!